2.1.09

Marley

“Marley & Eu” (“Marley & Me”, Estados Unidos, 2008), versão cinematográfica do livro de sucesso do jornalista americano John Grogan é a história de um cachorro que tem uns humanos como coadjuvantes.

Os humanos são um casal bacaninha, John (Owen Wilson) e Jenny (Jennifer Aniston, gatíssima), que se casam, mudam de cidade, compram uma casa, têm um filho, dois filhos, melhoram de vida, compram outra casa, têm mais um filho, melhoram mais um pouco, mudam-se de novo. Uma história comum, de gente comum, com seus conflitos tipicamente humanos, sem nenhum “glamour” especial.

O cachorro é o Marley – e ele é um labrador dotado de um inacreditável poder de destruição, amalucado, desastrado, indisciplinado, folgado, comilão, um “moleque” de quatro patas, no pior sentido da palavra.

Mas poderia ser tudo diferente.

Os humanos poderiam ser pobres, morar em um cortiço ou serem sem-teto. O Marley poderia ser um vira-latas pulguento. O que não mudaria seria a noção de amor incondicional e de entrega irrestrita que um cachorro é capaz de demonstrar por aqueles que se dizem seus “donos” – mas que aos olhos dele, são bem mais do que isso – e a completa alegria de viver na companhia deles.

Nisso, os cães são muito mais avançados que nós.

Os humanos – no filme, como na vida – se conhecem, se apaixonam, percebem uns nos outros primeiro as virtudes e depois as imperfeições, se desencantam, precisam reinventar os afetos, driblar contingências, mudar os planos, recomeçar muitas vezes. Isso se quiserem mesmo sobreviver uns aos outros e fazer sobreviver também um relacionamento, tarefa da qual muitas vezes desistimos.

Os cães não fazem planos: parecem conhecer a transitoriedade da vida e a levam do início ao fim, ligados no máximo – e amando no máximo. Um cão jamais cogita a hipótese de romper o relacionamento com seus humanos.


“Marley & Eu” é um filme sobre a inutilidade das escolhas – diante da constante imponderabilidade dos fatos. Porque, como sabiamente é dito ao jornalista John por seu taciturno chefe, “a vida às vezes faz suas próprias escolhas”.

Assim é que John vai passar anos silenciosamente invejando Sebastian, seu colega de profissão, que, sem “amarras” pessoais, alça vôos profissionais mais altos, cultiva um estilo de vida individualista e troca de namorada como quem troca de camisa – enquanto ele, por conta de casamento, casa, filhos, cachorro, “condena-se” à uma vida menos excitante, um trabalho menos emocionante.

Assim é também que Jenny abdica de uma carreira promissora para dedicar-se à criação dos filhos, recusando-se à contratar uma babá.

A vida faz, para ambos, escolhas diferentes das previstas – mas quem poderá julgar que tenham sido escolhas piores?

(No último encontro com Sebastian, a ficha finalmente parece cair para John – e ao notar que o amigo continua sendo o mesmo galinhão desapegado de sempre, apesar dos cabelos já grisalhos, ele parece compreender o valor de se ter uma foto de família na carteira: o olhar resignado de John para Sebastian quando se despedem tem uma ponta de quase desprezo ou este colunista viu o que quis ver?)


Fato é que esses dramas íntimos sobre o que somos e o que poderíamos ter sido, são conflitos que afligem apenas as mentes humanas – e o filme, como já foi dito, tem um cachorro como protagonista. E aos olhos – e para o coração – de um cão, seu “dono” será sempre nada menos do que o máximo.


No comovente texto final, a síntese de tudo isso:

“Para um cão, você não precisa de cαrrões, de cαsαs grandes ou de roupas de mαrcα. Um graveto está ótimo pαrα ele. Um cαchorro não se importa se você é rico ou pobre, inteligente ou idiota, esperto ou burro. Dê seu corαção α ele, e ele lhe dará o dele. De quantas pessoas você pode fαlαr isso? Quantas pessoas fαzem você se sentir rαro, puro e especial? Quantas pessoas fαzem você se sentir extraordinário?”


“Marley & Eu” é um filme que, quando acaba, causa um estranho calor dentro do peito, algo como nos “informar” que viver não precisa ser tão complicado, que a noção que temos de edificar algo de grandioso durante nossas vidas pode ser uma coisa bem relativa, que se debater diante das intransigências do acaso pode ser uma grande bobagem e que a vida é, enfim, um roteiro que se escreve enquanto o filme já está sendo exibido – e que remete à sensações como: “... é que de vez em quando ele fala sobre ter um projeto em comum, de ter uma casa com quintal gramado, uma piscina e um cachorro! Eu acho bonitinho às vezes. Só às vezes, mas acho... “

Essa foi uma piada interna, para ser compreendida apenas por leitores habituais deste blog.

O filme serve para qualquer pessoa.



"Marley & Eu"
trailer

7 comentários:

pegrucci disse...

Adorei o texto! Vc fez uma síntese, muito inteligente, do filme. Mencionou detalhes que só agora captei (apesar de ter visto o filme há alguns dias). Já pensou em escrever na coluna de um jornal? Quem sabe ser um outro "John" com seu "Marley" (Bebê) =)

Que tal seu próximo texto ser sobre uma gatinha, que por 16 anos presenciou muitas histórias felizes e tristes de uma família? ;)

Bjos ... Zizi

ligiaferraz disse...

realmente, não há amor mais incondicional que o de um cachorro pelo seu dono!
quanto ao filme, não acho que é tão bom assim.. o livro dá de dez a zero, ensina com muito mais sutileza as simplicitudes da vida. jpá no filme, acho que banalizaram demais alguns temas que deveriam ser trabalhados com mais delicadeza!
enfim, parabens pelo blog. :)

Vivica Bolacha disse...

Não vi o filme, portanto só poderei opinar com base nas tuas observações. Nunca tive um cachorro, então não sei se acredito mesmo na hipotese de que eles não pedem nada (tô exagerando) em troca e que não 'optam' para romper relações.
Somos permanentemente estimulados a ter uma vida cheia de luxos. O mlehor emprego, a melhor casa, a melhor escola para os filhos.
Prefiro que as pessoas busquem o trabalho, queiram se dar bem nada vida (sem a galinhagem do personagem que citaste) do que aquelas que 'constroem' uma família de 5 filhos e depois não conseguem colocar a acbeça no travesseiro com problemas insolúveis, como as contas que chegaram a juros exorbitantes. SAD BUT TRUE.

Beijos

Vini e Carol disse...

“Para um cão, você não precisa de cαrrões, de cαsαs grandes ou de roupas de mαrcα. Um graveto está ótimo pαrα ele. Um cαchorro não se importa se você é rico ou pobre, inteligente ou idiota, esperto ou burro. Dê seu corαção α ele, e ele lhe dará o dele.."

Essa foi uma das frases que me emocionou no filme, definiu bem o amigo do homem, adorei seu post, acho que você também gostou do meu né. rs

Obrigada pelo comentário e pela torcida para o Muskito *-* Tenho tantas saudades dele =(

Adorei suas interpretações, é um filme realmente emocionante.

Beijos, Carol

MO disse...

Li o livro ...e o filme abordou Marley como coadjuvante.

O casal teve suas desavenças e tudo mais no final eles amavam Marley.

Esse negocio do John invejar o colega de trabalho foi criado no filme... assim como Jeny desistir de trabalhar para o jornal.

Durante um bom tempo ela trabalha meio periodo e ainda cuida das 3 crianças... e John ajuda bastante.

Taimemoinonplus disse...

Oi,Colecionador, beleza?!

Bom, não vi o filme mas acabei de ler seu texto sobre a gata e vim parar no cachorro.

Minha conclusão pode parecer óbvia, mas é a seguinte:

Concordo com vc com o lance do cachorro sempre adorar o dono,seja ele traficante ou médico sem fronteiras.Não se trata apenas de ter carrão, o cara pode ser um pulha, um estelionatário de velhinhas indefesas, um desviador de verbas da saúde pública...e o cachorro dele sempre vai lhe abanar o rabo.Cachorros exigem bem pouco de seus donos, basta um pouco de comida, um teto qaulquer, uns afagos de vez em qdo.Fazendo isso, até apanham estoicamente.Ser humano é mesmo bem mais complexo.Já vi pessoas com gravíssimos problemas de relacionamento e até mais...verdadeiros psicopatas conseguindo nutrir relações afetivas com cachorros.Gostar e conviver com cachorro é lindo, fofo, mas é moleza! O desafio está em fazer prosperar pra valer as relações privilegiadas com os humanos!

Teresa Cristina André disse...

Sempre me sentí extraordinária, rara, pura e especial, pois sempre conviví com esses raros, puros, extraordinários e especiais animais, sem esperar nada deles a não ser a demonstração diária de amor e afeto, e retribuindo com respeito, afeto e amor. Adorei seu texto.