2.10.08

Fiori

(Junho, 2006)


Eu demorei um pouco mais que os outros garotos para gostar de futebol. Até os dez anos, mais ou menos, eu não conseguia compreender muito bem o que motivava aquela paixão por times e jogadores e aquelas infalíveis rodinhas na hora do recreio no colégio a discutir se o gol teria ou não sido em impedimento.

Meu pai era fanático.

Quando nos dirigíamos a almoços dominicais, pelo rádio do carro, ele invariavelmente ia ouvindo um programa narrado por um certo locutor, que contava de forma teatral, algo dramática, um tanto excessiva, histórias de grandes jogadores do passado, muitos já então falecidos ou com carreiras encerradas de forma pouco gloriosa. Chamava-se "Cantinho da Saudade"... Lembro-me de minha mãe, com ar de enfado, irritada, comentando:

- Outra vez esse homem falando de gente morta!

Meu pai, todavia, acompanhava a narrativa com enorme interesse e bem antes que o nome do jogador fosse revelado - só o era no final do programa - quase sempre já sabia quem era o personagem enfocado.

Horas depois, quando já voltávamos do almoço, a mesma voz anasalada e com o mesmo vocabulário excessivo e rebuscado, se fazia ouvir, agora narrando a principal partida daquela tarde.

Era Fiori Gigliotti, uma autêntica lenda da crônica esportiva paulista - que nos anos setenta, estava no auge de sua longa carreira.

Quando a paixão pelo futebol me atingiu pouco tempo depois, passei também eu a acompanhar os principais jogos pela voz e pelo estilo único daquele narrador. Tinha-se mesmo a impressão de que, ainda que o jogo não fosse grande coisa, o "parnasianismo futebolístico" que ele empregava, tinha o poder de transformar qualquer pelada em um grande embate. Seus bordões exagerados ("Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo, torcida brasileira!") passaram a ser familiares também para mim - Fiori Gigliotti foi uma espécie de herança que meu pai me transferiu.

Lembro-me de uma vez, eu então com uns onze anos, meu pai arrastou-me pelo braço no setor das cadeiras do Pacaembu até a posição de onde o famoso narrador exercia seu ofício:

- Autografa a bandeira do menino, Fiori! - e a bandeira autografada foi um troféu para mim por muito tempo.

Amanhã começa mais uma Copa do Mundo. Eu já vi muitas e me entusiasmei sinceramente com várias. Mas estou tão alheio a essa que desconfio que tenha algo a ver com a falta de romantismo desse futebol de hoje em dia, feito por esses jogadores que mais parecem astros de rock e por exorbitantes cifras de patrocínio. Nada contra a modernidade, muito pelo contrário; mas falta alguma coisa: os jogadores não são mais "da gente", não jogam nos nossos times; são todos muito parecidos, sejam mexicanos, ganeses ou sérvios: todos modelos de atletas bem sucedidos; tudo é muito limpo, muito certinho, muito técnico e desprovido de poesia - e falta Fiori Gigliotti.



Fiori Gigliotti morreu hoje, em São Paulo, aos 77 anos - e com ele, certamente, boa parte do futebol-lirismo que conquistou a mim e a muitos de minha geração. A Copa eu vou acompanhar, sim, como todo mundo - mas com olhos e ouvidos um pouco mais frios: é outro futebol, é outro tempo, é tudo diferente.

Quase posso ouvir a voz anasalada que brada:

"Fecham-se as cortinas e termina o espetáculo, torcida brasileira!"


São Paulo, 08 de Junho de 2006





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2 comentários:

FábioE§¢orpïão disse...

COMENTÁRIOS RECUPERADOS - postados no antigo blog


enviado por: Roberto Halfin
Eu tbm ouvia este programa e na época o \"cantinho da saudade\" era uma forma de fazer com que os mais novos tivessem identificações com o futebol de outros tempos. O futebol daquela época era feito de referências e hoje é baseado em aparências. O Fiori, assim como Pelé, Coutinho, Rivelino e outros foi uma referência. Pelo menos, mais do que em nossa memória, ele estará sempre nas nossas lembranças. Isso é que vale!
Parabéns pelo blog!!!

Taimemoinonplus disse...

Ah,aqui no Rio tb seguia-se essa escola do Fiori de gooools pulmonares,bordões, figuras de estilo,'r's rasgados e virtuosismo nos trava-línguas.Naquele tempo de tv preto e branco dava pra " ver" melhor o jogo no rádio.Aqui o famosão era o José Carlos Araújo.Eu adorava,está tudo fortemente misturado às minhas memórias afetivas de infância,junto com o Canal 100 que assistíamos como trailer no cinema! " Que bonito é....".

E pensar que hoje em dia temos que nos contentar com o Gavião Bueno.....pffffff!!!!