6.10.08

Os Olhos de Um Cão

(Agosto, 2008)

”Se teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz”
(Matheus – 6, 22)


Muita coisa há que eu odeio.

E eu, quando odeio, odeio com verdade proporcional à quando amo – e, com verdade, muita coisa há que eu odeio.

Eu odeio a juventude imbecil, sem idéias, nem ideais, sem romance, nem poesia: o gargalhante exército de cretinos, sem luta, sem causa, sem nada. Mas odeio ainda mais os não-jovens – e um pouco mais ainda os não-imbecis! –, tentando mimetizar-se entre eles, por medo do isolamento – ou, pior: em busca dele.

Odeio o substrato de refugo de lixo, servido à guisa de “cultura”, nos bandejões clandestinos dos camelôs de toda esquina – à preço de banana, para cérebros de banana.

Odeio o mau gosto travestido de “tendência”.

Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer a verdadeira companhia(frase que é perfeita, mas não é minha: é de Nietzsche, o que me lembra que eu também odeio quem faz uso de idéias alheias sem lhes conferir os devidos créditos).

Odeio sentir saudade.

Odeio quem não se dá, não se entrega e não se envolve, quem não veste camisas, quem não passa da beirada da piscina – quem joga, vive e ama na retranca, sempre esperando pelo movimento do outro.

Odeio covardia sob o rótulo de “insegurança”.

Odeio quem não defende seus afetos, quem não protege seus amores, quem não honra suas palavras e não assume seus atos, quem não socorre, quem não abriga.

Odeio os canalhas – e quem é amigo de canalhas.

Odeio violência, agressão, estupidez; falta de cordialidade e de polidez. Odeio a vaidade exacerbada. Odeio a falta de generosidade. Odeio a soberba. Odeio quem maltrata porteiros, garçons, manobristas e balconistas.

Odeio quem explora os mais fracos – sejam mais fracos fisicamente, culturalmente, financeiramente: os ditos “mais fortes” serão sempre perversos.

Odeio doutrinas.

Odeio o sectarismo arrogante dos que julgam-se pertencentes à uma “casta” superior qualquer: na política, na religião, na filosofia – seja no que for. Odeio todas as formas de separatismo e de intolerância.

Odeio qualquer forma de intervencionismo estatal sob a bandeira da disciplinação da sociedade. Odeio os corruptores e, ainda mais, os corruptíveis. Odeio quem coloca preço na dignidade – na própria e na alheia – e, quanto mais alto o preço estipulado, mais isso será odioso.

Odeio o egoísmo míope, o individualismo vil, quem pede e recebe, mas recusa-se a pagar o preço – por menor que seja. Odeio quem evita enfrentamentos, quem teme as rupturas, quem se acovarda, se acomoda, cede e se amesquinha – se o prêmio for satisfatório.

Odeio os chantagistas – mas mais ainda os chantageáveis.

Odeio a pilantragem consentida, o mau-caratismo justificado, a maldade relevada, a cafajestagem conivente – e conveniente.



Mas não há nada, absolutamente nada, neste mundo e neste plano de vida que eu odeie mais do que a suprema crueldade de quem abandona um velho cão nas ruas, à própria sorte.

No olhar de um cão abandonado, entre expressões misturadas de sede, fome, frio, dor, medo e tristeza, há mais – infinitamente mais! – verdade do que todas as humanas palavras (incluindo as minhas) podem traduzir.

E todos os meus outros ódios ficam então reduzidos a quase nada.

***

7 comentários:

E§¢orpïão disse...

COMENTÁRIOS RECUPERADOS DO ANTIGO BLOG


enviado por: Loira - Feinha

Espetacular, como sempre.
Seus textos, nem todos eles, tem algo de inquietante, tem ares de critíca, que nem quer saber do construtivismo.

Expressar o "fico puto" com esse mundo, desse jeito, com esse olhar de quem está do lado de cá do vidro, e que não somente se lixa, mas como despreza quem, por opção, fica do lado de lá... olhando com desdem, mas pobre deles, ignorantes, nem percebem como disperdiçam a vida, na prudência egoísta de quem nada arrisca, esquivando-nos do sofrimento... Somente olhando do lado de lá do vidro.


Ainda aguardo um livro seu.
Um beijo meu bem.

Em: 12/09/2008 11:58:42


enviado por: Virginia

O que é isso? adorei esse texto, compartilho dos seus odios...e como!!!! meu favorito ate agora!
Em: 14/08/2008 22:04:53


enviado por: Mara
Vc consegue combinar acidez e ternura nas mesmas linhas. Lindo.

Bjo
Em: 13/08/2008 12:44:48


enviado por: Debora

Site: http://http://www.paralerepensar.com.
Como sempre fantástico. Parece que adivinha, nos dias que mais preciso pensar, vc me faz pensar. Por isso venho sempre aqui reler.
E não me canso, pois teus textos me fazem resgatar algumas coisas perdidas...
Bjoooo
Em: 13/08/2008 12:09:47

nyara disse...

Texto perfeito!!!!

Katthy disse...

Nossaa!!! Parabêns!!! Perfeito!!

Louise Emille disse...

Ainda mais odiável que atirar um cão de um carro e sair correndo, é atirar um cão de um carro correndo. Há um caso em que um pobre poodle ficou mais de um mês com um pino na perna por causa de uma filhadaputice de seu "dono", que o atirou de um carro em movimento. Não tem ninguém mais odiável no mundo do que os covardes. Maldita raça que um dia foi nascer...

Muito bom seus textos, Fábio. Boa sorte com eles!
Beijos
Louise

IGOR De Oliveira Takahashi disse...

nossa muito bom, parabens pelo blog e pelo textoo!!!

Guto :D disse...

ótimo,meeesmo =)

Tati Comelli disse...

Ah, não, esse tenho q postar,compartilhar... Puts, me vejo em vários eus, nesses vários "personagens' seus!!!
(Sensacional!)