6.10.08

A História de Uma Gata

(Fevereiro, 2008)


"Minha vida era o apartamento (...)
Nós gatos já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres..."

("A História de uma Gata" - Enriquez/Bardotti - Versão: Chico Buarque)





Esta é a primeira noite que passo neste apartamento sem você.

Nesses últimos seis velozes anos em que esta passou a ser minha morada, acontecesse o que acontecesse, você sempre esteve aqui – sempre, todas as noites e dias, todas as horas.

Na noite de chuva em que você chegou, mal se equilibrando sobre as perninhas, tudo aqui era ainda novo, mal arrumado, improvisado – e você testemunhou com esses seus sentidos aguçados tudo o que foi pouco a pouco se modificando. Viu paredes sendo derrubadas, outras erguidas e outras mudando de cor; samambaias e outras plantas, vicejando, secando, morrendo; móveis chegando e móveis saindo, novos objetos encontrando seus lugares – e incomodou-se a cada vez que marceneiros, eletricistas e outros barulhentos aqui vieram desempenhar suas funções: a você, todas essas coisas, sempre pareceram nada mais do que uma interrupção de suas manhãs e tardes de sossego.

Mas você sempre esteve aqui.

Sempre esteve aqui e assistiu, mesmo sem notar ou dar a isso qualquer importância, à todas as minhas próprias metamorfoses, meu corpo, barba e cabelos, as músicas que ouvi, os livros que li, a religião que abracei – isso tudo, para você, nunca fez qualquer diferença: você sempre me viu exatamente do mesmo jeito, sua visão é profunda, profunda demais para se deter em aparências.

Observou com indiferença a verdadeira legião de mulheres que passaram sob o batente da porta de entrada, muitas delas – na verdade a imensa maioria – que só estiveram aqui uma vez, por um dia, uma noite, algumas horas – e nunca mais voltaram. Houve as que aqui estiveram mais vezes, algumas que passaram mesmo algum tempo e até chegaram a interferir em uma ou outra coisa do nosso cotidiano; e as que, apesar de terem nos visitado por muitas e muitas vezes, nunca fizeram nenhuma questão de compartilhar conosco, de fato, essa nossa morada tão amada – vinham, espalhavam-se, divertiam-se e partiam, deixando para trás muita desordem, muitos fios de cabelo pelo chão e resquícios de seus perfumes pairando no ar, sem notar que aqui era, bem mais que suas áreas de lazer, um lar: o nosso lar.

Se uma ou outra deixou para trás também saudade, foi apenas para mim, pois para você – noto com clareza – foi como se todas significassem uma só (ou sempre a mesma), tal o seu desinteresse, o seu desdém, sempre igual, por cada uma delas: talvez para você, o fato mais significativo gerado pela presença dessas criaturas em nossa casa, tenha sido a sua eventual expulsão do seu canto da cama, aos meus pés – cama que era, afinal, muito mais sua do que de qualquer uma delas.

Você acompanhou os encontros mas também as separações, todas elas: viu gente daqui saindo para sempre, acreditando ter encontrado amor mais verdadeiro logo ali, ali mesmo, na esquina; ou poder encontrar coisa melhor, talvez em uma outra esquina qualquer. O que você não viu foi o arrependimento de algumas, tentando encontrar o caminho de volta, caminho que já não havia.

Fato é que, no final, sempre fomos você e eu, nos entendendo à perfeição em nossos diálogos silenciosos – e o seu amor que exige mas não oscila, nunca.

Você deitou-se e aninhou-se ao meu lado, sem que eu tivesse que pedir, sempre, todas as vezes, não importando se eu estivesse alegre ou triste, bonito ou feio, com ou sem dinheiro, doente, angustiado, equilibrado ou em desespero. Você nunca condicionou seu amor a nada. Não se incomodou com meu hálito de cigarro ou de bebida, com a desordem da casa, com meus hábitos esquisitos e meus horários caóticos. Jamais me julgou pelos descaminhos da minha vida, nem me censurou pelos erros do meu passado.

Você esteve comigo enquanto caminhava nas nuvens e também quando me sufocava debaixo de escombros. Acompanhou-me durante a solidão mais abissal, finais de semana infernais, madrugadas intermináveis.

Você me viu chorando. Você me viu rezando.
Você me viu acendendo velas.
E pronunciando palavras estranhas.

Você me viu falando sozinho, muitas, muitas vezes – intermináveis diálogos com quem aqui não estava, nem em corpo, nem em espírito; e limpando e preparando a casa, na expectativa da chegada de alguém – o que nem sempre acontecia.

Você me viu tomando antidepressivos.
E vodca. Às vezes ao mesmo tempo.

Viu as coisas que ninguém viu, aquelas que eu não conto e não contarei a ninguém – só você sabe.

Quando não havia mais nada e nem ninguém, havia você.

Quando ciclos dessa minha vida desandada chegavam ao fim e nada mais restava do que vazio e amargura, você estava aqui, como que a me receber de volta de uma viagem, a me inocular de novo o senso de realidade, de individualidade, de ser necessário, de ser importante para alguém.

Para você, importante sempre foi ter-me ao alcance dos olhos, dos sentidos – ainda que aparentemente ausente, em sono profundo, você sempre fez absoluta questão de estar perto, onde pudesse tanto vigiar quanto saber-se vigiada. Não importou nunca à você o grau de ruína e de fraqueza em que me encontrasse: em mim, você sempre viu o protetor. Não um cais de ocasião, a maravilha da temporada, a fuga da opressão, mas o abrigo perpétuo.

Quase sempre arisca, constantemente rude, eventualmente agressiva com outras pessoas, a mim você sempre permitiu tudo – desde que devidamente expresso em nossos silenciosos e não-escritos códigos de conduta: afagos, rodopios, correrias, cócegas, puxões; tratar de feridas, enfiar-lhe remédios amargos goela abaixo, limpar-lhe os dentes e as orelhas; comer na minha mão, literalmente.

Retribuiu meus cuidados à sua maneira, em nosso cumprimento peculiar, tocando as pontas de nossos narizes, brincando de morder-me o dedão do pé e correr, e – principalmente e mais que tudo – lambendo-me demoradamente as mãos ao me ver deitado, como que tentando me ensinar seus próprios – e para você tão óbvios! – hábitos de higiene: lavar-se antes de dormir!

Você nunca precisou me temer para me respeitar, nem mentir ou dissimular para que eu a respeitasse. Jamais colocaria em risco a dignidade pétrea da nossa relação de afeto verdadeiro por um interesse escuso. Jamais cederia à chantagens. Jamais me magoaria. Jamais me usaria e descartaria quando me sentisse menos necessário. Nunca precisou vociferar a grandeza do seu amor em altos brados dramáticos: isso é coisa que só acontece entre humanos – a sua maneira de amar sempre foi silenciosa, autêntica, sutil e nunca necessitou do ruído das constantes reafirmações.



A sala era azulejada e branca.
E fria, metafórica e literalmente.

Eu via você se contorcendo em dores.
E sangrando. Sangrando muito.

Eu via você procurando pelos meus olhos entre os olhos das outras pessoas – você achava os meus olhos, você olhava para mim.

Quase sem voz e sem vocabulário, você falava comigo – e eu entendia, com perfeição aterradora.

- Está doendo, está doendo muito – você me dizia – faça parar, você tem que fazer parar, você pode, você pode!

- Eu estou com medo, estou com medo! Olha essa coisa viscosa saindo de mim! Eu não sei o que é, eu não gosto! Eu estou suja e não gosto! Você sabe que eu não gosto!

- Olha essas pessoas mexendo em mim – eu ouvia no silêncio do seu olhar –, você sabe que eu só deixo você mexer em mim! Olha, olha! Estão espetando coisas em mim! Por que você está deixando que façam isso?


No meu apartamento, realmente e completamente sozinho pela primeira vez, eu que tanto tenho escrito para falar de solidão, escrevo para você – pela primeira e possivelmente pela última vez; e apesar do aparente despropósito de se escrever para quem não pode ler, o faço com verdade proporcional à verdade dessa relação de afeto, sinceridade, entrega, companheirismo, cumplicidade, amor. Para dizer que o seu amor foi o único realmente incondicional e pleno de virtude – e só virtude! – que recebi durante esses anos todos. Para dizer que você foi, é e seguirá sendo o verdadeiro e único espírito feminino a habitar meu universo particular com a minha total e irrestrita anuência.

Pequena centelha de vida, criaturinha de Deus, anjinho de quatro patas que recolhi faminta e apavorada do asfalto molhado, numa distante noite de chuva - o seu amor foi o único do qual eu posso dizer, para sempre: valeu a pena!

24.02.2008



***********

ODE AOS GATOS (por Artur da Távola)

Bichos polêmicos sem o querer, porque sábios, mas inquietantes, talvez por isso.

Nada é mais incômodo que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece. O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência.

O gato não satisfaz as necessidades doentias do amor. Só as saudáveis.

Lembrei, então, de dizer, dos gatos, o que a observação de alguns anos me deu. Quem sabe, talvez, ocorra o milagre de iluminar um coração a eles fechado? Quem sabe, entendendo-os melhor, estabelece-se um grau de compreensão, uma possibilidade de luz e vida onde há ódio e temor? Quem sabe São Francisco de Assis não está por trás do Mago Merlin, soprando-me o artigo?

Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança a valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula.

Gato não.

Ele só aceita uma relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de arrogante, egoísta, safado, espertalhão ou falso. "Falso", porque não aceita a nossa falsidade com ele e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e ele o dá se quiser.

O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é espelho. O gato é zen. O gato é Tao. Ele conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer. Exigente com quem ama, mas só depois de muito certificar-se. Não pede amor, mas se lhe dá, então ele exige. Sim, o gato não pede amor. Nem depende dele. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano mas se comporta como um lorde inglês.

Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa essa relação precária do homem com o (próprio) mistério. O gato não se relaciona com a aparência do homem. Ele vê além, por dentro e pelo avesso. Relaciona-se com a essência. Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos secretos de agressão, o gato sabe. E se defende do afago. A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso , quando surge nele um ato de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é algo muito verdadeiro, que não pode ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe, pois significa um julgamento.

O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (ele que enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós). Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, ele se afasta. Nada diz, não reclama. Afasta-se. Quem não o sabe "ler" pensa que "ele não está ali”. Presente ou ausente, ele ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, ele está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir.

O gato vê mais e vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba perceber. Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio monge, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e de novas inter-relações, infinitas, entre as coisas.

O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precise de promoção ou explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. Ninguém em toda natureza aprendeu a bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato!

Lição de sono e de musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração ioga. Ensina a dormir com entrega total e diluição recuperante no Cosmos. Ensina a espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos os músculos, preparando-os para a ação imediata. Se os preparadores físicos aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam tanto tempo (quase 15 minutos) se aquecendo para entrar em campo. O gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu corpo, a qual ama e preserva como a um templo.

Lição de saúde sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias. Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho muscular. Lição de salto. Lição de silêncio. Lição de descanso. Lição de introversão. Lição de contato com o mistério, com o escuro, com a sombra. Lição de religiosidade sem ícones. Lição de alimentação e requinte. Lição de bom gosto e senso de oportunidade. Lição de vida, enfim, a mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemências, sem exigências.

O gato é uma chance de interiorização e sabedoria posta pelo mistério à disposição do homem.


***

3 comentários:

Katthy disse...

Nossa, parece que foi eu quem escreveu o texto "A história de uma gata". Me reconheço eu vários trechos do texto. Muito bom mesmo! Só quem tem entende, rs !
Bjs

Anônimo disse...

4 da manhã e eu, por acaso, caio nesse blog e acabo totalmente emocionada com a postagem.

Taimemoinonplus disse...

Olá, Fábio, escorpião, colecionador, Sr.Politicamente incorreto ou seja lá o que fôr...rs

Conheci o seu blog ontem e é a primeira vez que comento.Temo até que eles esteja meio desativado- a ultima postagem é do ano passado!-enquanto vc deprimido, solitário e sem gata bebe e fuma sem parar.

O texto é muito bom, bem escrito e prende a atenção, esse mérito vc tem e não sei se sua curiosidade pela opinião dos leitores já se satisfaz por aqui.

A dúvida que persiste após a leitura é a seguinte ( e não precisa responder), qtos porcento desse texto representam realmente seus sentimentos e quantos porcento são licença poética sob forma de arrebatamente literário.Será que vc expõe tão visceralmente o que acontece no seu íntimo mesmo ou cria um personagem partindo de alguns pontos no real?

Acho que a gata existiu, acho que a relação de vcs deve ter sido mesmo ótima,acho que vc pode ter escrito sob forte emoção de uma perda violenta, mas será que foi tudo verdade mesmo?!

Independente de verdade, gostei do texto.Mas se foi verdade naquele momento e passado o tempo continua sendo, acho um pouco preocupante.Nas relações afetivas com seres humanos não temos o controle de praticamente nada.Uma parte nos pertence, mas não tudo.Relacionar-se com outro ser humano não deixa de ser se colocar nas mãos do outro, como sua gata.Nas relações afetivas com animaizinhos de estimação as coisas são muito mais previsíveis e o sucesso muito mais garantido.Pode ser divino, terapêutico extremamente gratificante, pode despertar o que de melhor há em nós e tudo isso, mas o verdadeiro desafio, meu caro, são as relações afetivas com outro ser humano, sobretudo as afetivas-sexuais com um ser humano do sexo posto.Essas sim são um verdadeiro desafio, não só de escolha e de entrega, como de resiliência depois de algumas chapuletadas.Gato escaldado tem medo de água fria...