Eu me lembro de você. Claro que me lembro. Não foram poucas as vezes em que estivemos aqui, neste lugar. Algumas até na mesma mesa, entre outras tantas pessoas. Eram muitas pessoas. Eram outros os tempos, os assuntos. Debates, opiniões em conflito. Era na madrugada, depois de muitas doses que a conversa se inflamava, se enfurecia por vezes. Em mesa de bar sempre se tem a certeza de que é possível resolver todos os problemas do mundo – após a próxima rodada, de preferência!
Você se lembra? Talvez não. Eu me lembro de você, se incomodando com frio, com fumaça. Se enjoando após o segundo copo, não raro pedindo um refrigerante apenas para continuar mais um pouco à mesa. Eu achava engraçado alguém perguntar ao garçom “tem Sprite?”, após ter tomado dois chopps, muito engraçado. Acho que por isso nunca me esqueci de você, que, de toda maneira, era o primeiro a se levantar, sempre deixando sua “parte” da conta e se despedindo. O primeiro a ter sono era você.
Eu me lembro de você, olhos arregalados, diante dos meus excessos à mesa. Comida de botequim, a graça deve estar na falta de rigor com a higiene, não é? Você fazia uma expressão engraçada, entre nojo e desaprovação. Meu gosto pela improvável mistura. Pelo sabor mais nocivo. Pelo prato mais suspeito. Álcool e tabaco. Alho e pimenta. Peixe cru, café forte.
Você não beberia isso, não comeria aquilo.
Não mesmo.
Eu me lembro da sua cara espantada diante de revelações de um língua-de-trapo – e todas as línguas são de trapo depois de uma certa hora. A garçonete, no banco de trás do Fusca. Alguém cujo nome nem cheguei a saber, em pé, no jardim, antes que o marido chegasse. As histórias sobre os cabarés paupérrimos, lugares que você jamais freqüentaria, jamais freqüentou. Sobre as viagens sem destino, de tantos apuros, de dormir em qualquer canto. Seus olhos pareciam querer sair das órbitas. Você, seus medos. Das doenças, dos riscos todos. Você boquiaberto, ouvindo. Reconheço hoje algum sadismo em te contar.
Mas contava.
Das minhas histórias de amor, te contava. Você sabe, se lembra? Minhas paixões, sempre de arrasar quarteirão. De felicidade estrepitosa, exibida. De dores de cotovelo homéricas, de corno epopéicas. Sempre o céu ou o inferno, nunca existiu para mim um lugar entre dois extremos. Você ouvia. Você, sempre tão centrado! Que após um pé na bunda ou um par de chifres, logo já era amigo da ex. Uma pessoa equilibrada, você!
Tão diferentes nós dois, não é?
Mas não havia traço de maldade no meu ser diferente de você, lhe asseguro. Não mesmo. Nunca imaginei te ofender, te afrontar.
Só hoje eu sei que você nunca me suportou.
Nunca imaginei o quanto você achava, intimamente achava, que eu devesse ser punido pela minha perniciosidade. Pela minha promiscuidade, pelos meus abusos. Pela minha falta de modos. Por zombar dos riscos, das regras. Por falar demais, por alardear minhas mazelas como fossem troféus de guerra. Por ser roto, sujo, obsceno – e não fazer questão alguma de ocultar ou me desculpar por isso. Por atentar seguidamente contra minha própria saúde. Por tudo isso – e isso eu não imaginava – você me queria castigado. Era meu merecimento, você achava.
No entanto, passaram-se quase 30 anos, meu camarada, quase 30! E eu ainda estou aqui. Ainda tenho cabelos, dentes. Ainda respiro – e bem, para seu desespero.
Mas, você sabe como é, a gente envelhece, a gente muda. Não há como evitar, não é? Eu, por exemplo, ainda gosto dos bares, mas já não quero mais mudar o mundo, já não é isso que eu passo as noites conspirando, com os cotovelos sobre o mármore da mesa. Minha única ambição, hoje, é não permitir que o mundo me mude. E – você há de convir – essa já é uma grande ambição, não é?
Eu já não encontro vários conhecidos quando chego aqui. Não ando mais em bando. Gente da nossa idade já não conhece tanta gente, você sabe disso, não sabe? É diferente hoje. Sim, sim: com uma mulher, sempre, eu sei que você olha. Eu sei até que você cochicha, que faz comentários, algumas têm idade para serem minhas filhas? É isso que você diz, não é? Pois é, meu camarada, lamento, mas não são.
Mas você observa bem, eu sei. Você sabe como é, que eu gosto de comer, de beber e de conversar, sempre gostei de conversar. É a essência da interação, não é? Conversar sem tempo, sem compromisso, sem ansiedade, sem hora pra levantar da mesa. Um lugar aconchegante, um garçom atencioso. Você sabe, mesinha de calçada não é pra gente, a gente não é menino, a gente tem um troco, pode pagar, não é? Mas eu não posso deixar minha namorada na mesa e ir lá fora rapidinho e voltar, como você, sarcástico, me fala pra fazer. Não tem como, tudo está ligado, é tudo uma coisa só. E você só faz de conta que não entende.
Por isso você vibrou quando soube da novidade, não é? Porque você de imediato percebeu que isso, que esse pequeno detalhe, teria o poder de arrasar com a minha brincadeira. Com uma das poucas coisas que ainda são capazes de me proporcionar prazer genuíno. Com meu derradeiro elo de ligação com aquela chama primitiva, dos meus olhos, naquele tempo. Você percebeu que o golpe era preciso, bem no alvo, você ficou feliz, eu sei que ficou.
Agora você se sente poderoso, não é? Afinal, você tem uma lei com você, foi feita por pessoas iguais a você. Você agora me olha de cima e eu sou o clandestino neste lugar que sempre foi meu! Nas mesas onde eu tramei revoluções. Pelos corredores onde vivi meus amores. Até no palco, onde eu me sentia artista e você me assistia. Resolveram que eu sou inadequado aqui. E você, justo você, que sempre dormiu nas cadeiras, você com a sua rinite, seu fígado sensível, com seu estômago fraco, suas opiniões frouxas, olha só: agora é você que manda, é seu, é tudo seu! Este lugar e todos os outros! Tudo, tudo seu, sem exceções, sem possibilidade de escolha, de opção. É a democracia como você a concebe, não é?
Então ta: será assim, como você sempre quis.
Eu estou saindo, é ao lado de fora que você me relegou.
Você venceu.
Mas antes que eu saia, antes que eu me despeça definitivamente, eu desejo te fazer uma pergunta.
Seja sincero, ao menos agora.
Não é o meu cigarro que te incomoda, não é?
Não é e nunca foi!
Te incomoda o que se desprende do tabaco, sim – mas não pela ponta em brasa e sim pela outra ponta. Não é a fumaça o que te perturba, é o meu prazer! Este – pequeno, trivial, corriqueiro, bobo até – e todos os outros. O meu prazer deletério, mundano, sujo, fugaz, perigoso. São as coisas que você sempre quis fazer, mas tinha medo. É o ódio que você tem pelos trinta anos que se passaram e estamos, os dois, aqui! Exatamente do mesmo jeito, os dois: vivos! Você fica pensando no tanto de coisa que não fez com esses seus temores todos, me vê aqui e não se conforma: de que te adiantou, não é? O que você ganhou mais que eu? Dinheiro, talvez, mas isso não te consola. Você pensa nas garçonetes fuleiras, na última dose daquela bebida barata, no sanduíche de pernil de botequim: e mira na ponta do meu cigarro. Sua vingança, não é?
O que te incomoda, camarada, não é fumaça: é eu ser quem sou e você ser quem é. Mas isso não vai mudar, não há como mudar, assim como não há como mudar o que já passou e o que já foi vivido – ou, no seu caso, o que não foi.
Você me queria doente, não é? Você não confessa, polido que é, mas queria. No fundo, sempre achou e ainda acha que eu merecia. Pois eu devo dizer que, enfim, você conseguiu. Eu estou doente, sim. Mas não é de câncer, cirrose, enfisema, cólera, úlcera, AIDS, sífilis, pancreatite, não é. É de tristeza.
Eu vou sair, sim.
Vamos ver como se vira sem mim.
Vamos ver o que você – e pessoas como você – fazem desse lugar.
O humorista, ator, escritor, artista plástico, diretor teatral e apresentador de rádio e TV José Eugênio Soares, 71, tem, nas última cinco décadas, sedimentado uma imagem clara: um sujeito inteligente, de vasta cultura, capaz de trafegar pelos mais diferentes assuntos, de espírito irrequieto, opiniões próprias e um proverbial bom humor.
Apesar de assumir publicamente a condição de hipocondríaco, sempre fez piada da própria obesidade: Jô é o modelo de gordo feliz, do tipo que deixa bem claro que jamais abriu mão dos pequenos (e grandes) prazeres à mesa, seja para obedecer os ditames das cartilhas da saúde perfeita, seja em nome de uma silhueta mais “socialmente aceitável”. Aliás, com constância, faz troça das nomenclaturas e dos conceitos tidos como “politicamente corretos”.
Rico, sofisticado, constantemente citado como um dos homens mais elegantes do Brasil, sempre cultuou o estilo bon vivant – e jamais fez nenhuma questão de esconder isso: além da boa comida, a imagem pessoal do multi-artista sempre esteve associada à boa música, carros importados, motocicletas possantes, viagens internacionais, boa bebida e bons fumos – aliás, os melhores: Jô é apreciador de charutos cubanos há muito tempo. Tanto é que os charutos tornaram-se dele uma marca registrada, quase tanto quanto as gravatas borboleta: são inúmeras as imagens dele portando e degustando os cilindrões de tabaco em aparições públicas, inclusive em seu próprio programa, no qual, por algumas vezes, recebeu entrevistados para falar do assunto. Jô ainda aparece fumando charuto em fotos nas orelhas de seus dois primeiros romances, “O Xangô de Baker Street” (1995) e “O Homem que Matou Getúlio Vargas” (1998).
O gosto de Jô Soares pelos charutos é tão notório, que em 1999, o artista lançou uma griffe de charutos com seu nome: produzidos pela empresa D´Angelo, nas Ilhas Canárias, com fumo de procedência cubana, os Charutos Jô Soares foram resultado de longa pesquisa e experimentação do próprio artista, até que se chegasse a um resultado que ele aprovasse.
Evidente que o senhor José Eugênio recebe royalties por ceder o nome artístico ao produto, óbvio.
Então, com base em toda essa história, a foto do rechonchudo artista literalmente vestindo a camisa da delirante campanha paulista de caça ao fumo é uma dessas imagens que me fazem acreditar que o mundo enlouqueceu. Absurdo, sem sentido, esquisito. É o mesmo que ver a Gaviões da Fiel vestida de verde, o Edir Macedo pedindo benção ao Papa ou o João Gilberto em cima de um trio elétrico, rebolando e dizendo que é tiete do Chiclete.
Fato é que Jô – o fumante e grande conhecedor de charutos – é uma das estrelas da campanha, menos pela sua participação em peças publicitárias, do que pelo palanque em favor da “causa” em que transformou seu programa diário, nas últimas semanas.
No dia 4, na antevéspera da entrada em vigor de lei, Jô recebeu o Governador José Serra para uma entrevista. Entrevista, na verdade, é força de expressão: foi praticamente um bate-papo, em que o apresentador limitou-e a “levantar a bola” para o entrevistado falar sobre os feitos do seu governo e, principalmente, defender a aplicação de sua lei – sozinho, à vontade, sem qualquer contraditório, sem contestações de nenhum tipo (nem mesmo as mais óbvias).
A “sala de visitas” do Jô ainda recebeu, em depoimentos gravados, a participação do médico Dráuzio Varella – que, assim como José Serra, é amigo pessoal do apresentador (eu juro que tentei escrever o artigo sem mencionar o nome do Doutor Pop, mas ele está em todos os lugares, como já provei em postagens anteriores).
Para quem não viu, conto ainda que Serra teve o programa INTEIRO só para ele: sim, os três blocos, fato raríssimo nos vinte anos do programa, só acontecido quando da presença de entrevistados extremamente incomuns ou diante de fatos realmente extraordinários – e, lógico, que nenhuma das duas regras se aplica.
Continuando a sua nova fase de engajamento à causa, o charuteiro anti-tabagista Jô Soares, recebeu há poucos dias, a médica pneumologista Iara Finks: jovem, simpática, bem articulada, mas – vamos combinar? – uma ilustre desconhecida, que recebeu dois blocos do programa.
Ganha um Charuto Jô Soares quem adivinhar o principal foco da conversa!
Curioso que, em um dado momento da entrevista, a doutora abordou um aspecto dessa história toda, que a maioria dos patrulheiros histéricos, sejam médicos ou não, costumam “esconder”: que os possíveis males causados pelo hábito de fumar estão ligado a fatores GENÉTICOS. “Tem gente que tem a genética `boa’ pra fumar”, disse. Por isso há, segundo a especialista, fumantes que vivem “atéos 90 anos” e não desenvolvem doenças pulmonares, vindo a morrer por outras causas.
Mencionou também que os males provocados pelo fumo, estão sujeitos a “interação entre o fator genético e a condição física” – o que me leva a crer que fumantes obesos e sedentários, como apresentadores de TV charuteiros, realmente correm sérios riscos.
Traduzindo: fumar faz mal, mas não um “mal igual” para todo mundo – e esse “mal” ainda pode ser minimizado por uma boa condição física.
Foi engraçado ver o apresentador-engajado, diante dessa abordagem – pela qual ele certamente não esperava –, tentando sutilmente mudar o rumo da prosa, insistindo na ladainha “fumar mata” e pronunciando a palavra “câncer” mais vezes do que era necessário.
Depois, como parte da arma mais nefasta de discriminação do fumante – a demonização –, aproveitou a presença da médica para exibir trechos de filmes americanos, para provar que, com o passar dos anos, o cigarro saiu das mãos dos “mocinhos” (como o James Bond, de Sean Connery) para os “maus” – como a “nada sexy” e nem um pouco interessante escritora-psicopata de Sharon Stone, em “Instinto Selvagem”: sim, aquela que cruzava as pernas diante dos policiais babacas. Não sei não, mas desconfio que esse tipo de abordagem pode ser um tiro pela culatra.
Para terminar, exibiu cena do filme “Voltar a Morrer”, em que um homem, aparentemente em estado terminal, pede um cigarro a outro homem.
- Você não pode fumar – diz o segundo.
- Já estou morrendo mesmo, que diferença faz? – insiste o moribundo.
Então, depois de acender o cigarro, o enfermo o traga através de um orifício de traqueostomia, para reações de espanto e “nojinho”, tanto do outro personagem, quanto da platéia do programa.
Parece que Jô adora essa cena e a escolheu como “emblema”: no dia da entrevista-recepção ao governador, já a houvera exibido.
Grotesca e fora de contexto, a cena, à primeira vista, é mesmo repulsiva – e atende bem aos interesses dos que tentam pintar os fumantes como uns condenados. Querem impor, de todas as formas, a idéia de que fumar é doença.
- O tabagismo é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como uma do-en-ça – declarou a doutorinha.
Mas, refletindo só um pouco – coisa que os histéricos abobados têm muita dificuldade de fazer –, se uma pessoa está à beira da morte – tanto faz se por câncer, febre amarela ou por ataque de piolhos –, repito a indagação do personagem: que diferença faz? O que pode ser mais cruel do que negar um pedido simples a alguém que está à morte?
O uso dado pelo programa do senhor José Eugênio à cena, objetiva fazer com que os fumantes olhem-se no espelho e sintam nojo de si próprios – mas eu me sinto é desrespeitado. Mais ainda quando olho para rechonchuda figura do apresentador e penso que, por uma questão de coerência, ele deveria encampar uma campanha semelhante e com a mesma abordagem, contra outra “doença” – igualmente reconhecida como tal pela OMS – ainda mais perigosa do que o tabagismo: a obesidade!
Sim: e certamente não faltariam cenas de documentários médicos, exibindo constrangedoras imagens de obesos mórbidos em estado terminal, jogados em leitos de hospital, vítimas de diabetes, infartos, hipertensão, tromboses, sofrendo por apinéia do sono, doenças articulares, incontinência urinária, insuficiências respiratória, renal, hepática e cardíaca.
Talvez até encontrassem um filme em que um gordão, com o pé na cova, fizesse um último pedido: uma bomba de chocolate, pelo amor de Deus!
E para demonstrar o seu real engajamento, Jô poderia emagrecer: uns 40 quilos, para começar! Afinal, quem pretende difundir uma campanha dessa natureza tem, antes de mais nada, que dar o exemplo!
Aliás, por falar em “dar o exemplo”, eu não o ouvi dizer, nenhuma vez, que parou de fumar. Alguém ouviu? Hã? Pois é, nem eu.
Então, perguntamos: Jô, qual é a sua?
Faça o que eu digo, não faça o que eu faço?
O que motiva alguém a vestir a camisa de algo em tão completa falta de sintonia com sua história, estilo e hábitos? Claro que Jô Soares, o bon vivant, não compactua com toda essa babaquice e nem sequer é favorável a Lei Anti-Fumo! Então, por que?
Um vultoso cachê pela participação na campanha?
Não! Por maior que fosse: Jô é MUITO rico, evidentemente não precisa disso.
O que então? Uma ordem vinda de cima, da emissora que o emprega?
Não também: Jô é independente dentro da Globo e sua pauta sempre pareceu totalmente descolada das diretrizes jornalísticas da emissora.
Então, afinal, o que?
O que eu enxergo, nitidamente, é o seguinte: o factóide da Lei Anti-Fumo marcou o início da temporada de pavimentação do caminho de José Serra à Presidência, e é a esse projeto que Jô Soares está realmente engajado. A estreita ligação dele com o “alto tucanato” paulista é antiga e notória, inclusive com o ex-presidente Fernando Henrique e com o governador Serra, de quem, como já foi dito, é amigo pessoal. Jô tem sido “porta-voz” informal do PSDB e aparentemente sente disso muita vaidade. Mais que isso, aparentemente realmente acredita que Serra na presidência é tudo de que o Brasil precisa. É uma coisa de “os fins justificarem os meios”, eu diria: não, essa não é uma maneira apenas petista de fazer política.
E, convenhamos, para levar um sujeito chato, ruim de conversa e absolutamente desprovido de carisma como o José Serra à presidência, serão mesmo necessários ótimos comunicadores, além de muitos factóides – e logo: Serra terá que deixar o Palácio dos Bandeirantes em Abril do próximo ano, caso realmente seja indicado. Resta, portanto, bem pouco tempo para que seus “simpatizantes” o auxiliem abertamente: como se sabe, uma vez que o candidato esteja definido pelo partido, passa a vigorar uma verdadeira mordaça imposta pela lei eleitoral aos órgãos de comunicação, que não podem, de forma alguma, mostrarem-se favoráveis a um ou a outro.
Se você nunca entendeu porque o Zé Serra, tão preocupadinho que é com os pulmões dos fumantes passivos, não mandou sua lei caça-fumaça para a Assembléia Legislativa logo que assumiu, preferindo deixá-la para a reta final de seu governo, talvez agora tenha uma “dica”.
Nós, velhos boêmios revoltados, não significamos nada nessa engrenagem, voltada para interesses tão maiores. Ninguém está pensando na gente quando o que se enxerga é o poder. E a esmagadora máquina de propaganda do governo resulta no que se está vendo: as pessoas colando os cartazinhos em tudo que é canto e repetindo os blábláblás do Doutor Pop, da mesma forma que repetem os “Hare Babas” da novela, feito uns papagaios descerebrados.
Eu, antes de “me jogar no Ganges”, digo o seguinte: se Serra fosse MACHO, ele teria ido pro PAU com o Lula em 2006, quando a petralhada bandida ainda estava tentando arrumar um jeito de esconder debaixo dos tapetes a sujeira toda que veio à tona no escândalo do mensalão, um ano antes. Ao invés disso, o PSDB –, incompetente, arrogante, pouco patriótico e covarde –, adotou outro caminho. Ao concluírem que Lula era imbatível naquele momento, seus caciques preferiram garantir o feudo paulista: Serra deixou a prefeitura – que assumira um ano antes! – nas mãos de seu vice, e se candidatou a uma eleição que sabia que ganharia com um pé nas costas. Para a eleição presidencial, mandaram o boi-de-piranha Alckmin – e o resto da história todo mundo sabe.
Essa gente não está preocupada com o seu pulmão e nem com mais nada: são políticos, apenas isso. Querem parecer heróis para receberem seu voto, simples assim.
Pensando nos charutos do Jô, lembrando do sorriso cínico do Serra e olhando para os zilhões de cartazes do anti-fumo pela cidade, eu não tenho como não me lembrar da frase “às favas com escrúpulos, senhor presidente!”, proferida, em 1968, pelo Ministro Jarbas Passarinho ao então presidente Costa e Silva, quando da implantação do AI5 – ato que decretou o início do pior momento da ditadura militar.
Acho desnecessário discorrer sobre seu significado.
Mas lembro que, ironicamente, “Às Favas com os Escrúpulos” é título de uma peça de muito sucesso, encenada em São Paulo em 2007, com texto de Juca de Oliveira, inspirado na célebre frase, e direção de ... Jô Soares!
Parece que, sem anunciar, Jô está encenando uma espécie de “segundo ato” do espetáculo. Mas, no papel principal, não está mais Bibi Ferreira!
O ex-fumante é uma espécie do gênero dos chatos-de-galocha, da família dos patrulheiros-da-vida-alheia, pertencente à grande ordem dos filhos-da-puta – a mesma da qual fazem parte os juízes de futebol, os técnicos da seleção, 92,7% da população da Argentina e grande parte dos integrantes do poder legislativo das repúblicas subdesenvolvidas.
Em pesquisas realizadas em várias partes do mundo, os ex-fumantes são sempre citados como, pelo menos, uma das três coisas mais chatas que existem. No Brasil, sua chatice só é comparável à utilização de videokês em festas de aniversário e, talvez, à banda Calypso.
Estão catalogadas várias subespécies de ex-fumante. As mais comuns são:
Ex-fumante tiozão-fodão-esportista
De hábitos matutinos, essa subespécie é vista frequentemente logo pela manhã, calçando tênis caríssimos e uniforme de corredor, malhando nos parques da cidade, antes de ir para o trabalho. Esse sujeito fumou durante uns 40 anos e resolveu abandonar o vício ao mesmo tempo em que largou a esposa gorda pra se casar com a secretária gostosa, melhorou a alimentação e começou a praticar esportes. Sua vida melhorou horrores e sua auto estima foi às alturas – ter parado de fumar, obviamente, corresponde a uma pequena parte dessa metamorfose. Mesmo assim, se ele te vê fumando, olha pra você com um ar de superioridade e faz questão que você note o quanto ele é fodão e que jamais vai conseguir ser como ele. Sim, ele acha que todo mundo quer ser fodão como ele.
Ex-fumante hipocondríaco (ou “rato de clínica”)
Grande responsável pelos altos preços dos planos de saúde, esse sujeito não sai do médico. Faz um checkup completo toda vez que dá um espirro e declama de memória os resultados de todos os exames. Leitor compulsivo de bulas e de reportagens sobre avanços da medicina. Tem cartão-fidelidade em todas as grandes redes de farmácias. Apesar disso, sempre está com o nariz escorrendo ou sentindo alguma dor. Metade das frases que diz se iniciam com a expressão “se eu não tivesse parado de fumar...” e a outra metade termina com “ainda bem que eu parei de fumar”. Coloca a mão no seu ombro com cara de pena para lhe dizer que “o cigarro contém em sua composição 4.700 substâncias tóxicas” – e se você der brecha, ele vai dizer a você quais são. Todas.
Ex-fumante reclamão
Essa subespécie tem como característica marcante o olfato muito apurado. Você sai pra fumar no quintal e ele sente o cheiro lá na sala. Muito agressivo, esse tipo sai de perto de você, caso você acenda um cigarro, não hesita em reclamar caso veja alguém fumando em local proibido e se recusa a entrar em carro de fumante. É do tipo que vai pro botequim ou pra balada e reclama que a roupinha e o cabelinho dele voltaram pra casa com cheiro de cigarro – há estudos que afirmam que a supressão da nicotina pode ocasionar distúrbios hormonais, que por sua vez provocariam uma perturbação psíquica conhecida por boiolicis ocasionalis. Mas esses estudos ainda não são conclusivos. Fato é que a agressividade dessa subespécie se deve ao fato de que esses indivíduos são ainda muito mal resolvidos na condição de ex-fumantes. O cara parou de fumar há pouco tempo, achando que a vida iria melhorar e só o que conseguiu foi ficar ansioso. E engordar dez quilos.
Apesar das diferentes subespécies, todo ex-fumante tem uma característica em comum: se consideram pessoas superiores, verdadeiros vencedores, moralmente mais elevados, melhores que todos os outros, em especial aos ainda-fumantes – que, na visão deles, não passam de uns viciados, fracos, derrotados e incapazes.
O ex-fumante não perde sequer uma oportunidade de mostrar, através de inflamados discursos, o quanto ele é mais sábio e o quanto ele quer (na verdade, ele precisa) que os outros percebam seus méritos. Em termos de capacidade de encher o saco, ele só é comparável aos recém convertidos às religiões evangélicas, desses que juntam rodinhas de curiosos no centro da cidade, enquanto pregam com a Bíblia na mão.
(Aliás, como a primeira coisa que o sujeito que passa a freqüentar essas igrejas faz, é deixar de beber e de fumar, tem-se observado a proliferação da subespécie mutante ex-fumante-crente, extremamente perigosa e cujo comportamento ainda está sendo estudado – talvez tratemos deles em um artigo futuro.)
O problema do ex-fumante é que ele não se contenta em parar de fumar sozinho: ele quer levar todo mundo com ele para o caminho do não-vício! É praticamente um corruptor ao contrário.
Também tem uma necessidade exibicionista de dividir sua proeza com o mundo: se você digitar no Google “diário de um ex-fumante”, surgirão na sua tela uma centena de links para blogs, nos quais essas criaturas escrevem textos chatíssimos, em que narram suas vitórias cotidianas contra a tentação de voltar a fumar.
Eu não sei quem, além deles próprios, lê isso.
Pior ainda é que ex-fumantes costumam se reunir em ONGs para multiplicar o seu poder de chatear os outros e para encher o saco dos governos, pressionando para que sejam criadas leis cada vez mais delirantes e draconianas de combate ao fumo.
Eles juram – muitos até se convencem disso – que têm por objetivo zelar pela saúde das pessoas e salvar muitas vidas: consideram-se verdadeiros super-heróis de história em quadrinhos! Mas na verdade, são movidos por uma gigantesca dor-de-cotovelo: não se conformam que ainda exista gente no mundo que, sem neuras, continua curtindo aquele pequeno prazer do qual eles sentem tanta falta!
Ao contrário do não-fumante, que, por opção, não adotou o hábito de fumar e que, por isso, tem todo o direito até de sentir-se incomodado com a fumaça alheia, o ex-fumante é um filho-da-puta porque ele sabe (e como sabe!) o quanto fumar é bom e absolutamente indispensável em diversas situações cotidianas.
Se ele está com você numa mesa de bar e, logo após o primeiro gole do primeiro chopp, você automaticamente acende aquele obrigatório (e de-li-ci-o-so) cigarro, ele disfarça, mas fica com a boca salivando – e tem o desejo secreto de te matar, enfiando no seu olho o primeiro objeto pontiagudo que ele puder encontrar.
Se após um jantar maravilhoso, com direito a sobremesa, licor e café, você – obviamente – acende aquele cigarro, enquanto esperam a conta, e traga, cheio de prazer (porque não há refeição completa sem cigarro!), ele sente ímpetos de pular no seu pescoço e enfiar os dentes na sua jugular.
Mas ele se controla – e é exatamente nessas horas que ele costuma iniciar seus discursos anti-tabaco.
Começa a falar sobre câncer, enfisema, aneurisma, impotência, queda de cabelo, perda de dentes, caspa (porque, para ele, TUDO é causado pelo cigarro) e toda a sorte de misérias desagradáveis.
Ele tenta fazer parecer que quer te ajudar a parar de fumar, mas é mentira: ele só quer cortar seu barato. Se você lhe dá atenção e, mesmo que só por educação, diz que tem vontade de parar, ele “cresce” pra cima de você – e a pregação fica mais e mais entusiasmada, ele vai enumerar mais umas duzentas doenças que o cigarro causa e vai tentar te convencer do quanto a vida dele melhorou depois que abandonou o vício. Os olhinhos dele brilham nessa hora! Quanto mais você se interessa, mais ele fica contente: fica parecendo que eles – os ex-fumantes – necessitam cooptar fumantes, atingir uma espécie de “cota”.
Agora, se você nem liga para o que ele fala, sorri, se recosta preguiçosamente da cadeira e diz que fuma porque gosta, antes de dar mais uma longa e saborosa tragada e mudar de assunto para futebol, mulher ou qualquer outra pauta mais agradável, ele se come por dentro e deseja secretamente que você tenha um câncer e morra em menos de uma semana – mas se controla.
Quando chega em casa, te xinga de tudo quanto é nome, berra, soca a parede ou se submete a algum tipo de auto-flagelo – qualquer coisa que faça com que ele consiga controlar o desejo de correr para o bar mais próximo, comprar um maço do cigarro mais vagabundo e fumar até explodir.
Para se tornar um ex-fumante, você precisa evitar a todo custo, todas as coisas e situações que pedem, como complemento, o bom e velho cigarrinho.
Pare de beber. Óbvio: além da bebida naturalmente “chamar” um cigarro, se você passar uma ou duas doses da conta, vai perder o juízo e fazer alguma besteira. Na melhor das hipóteses, acender um cigarro. Na pior, pegar a baranga da festa. E, talvez, as duas coisas.
Evite comidas muito saborosas e suculentas, feijoadas, carnes, moquecas, comida mineira – isso tudo vai te dar uma bruta vontade de fumar. Prefira folhas cruas, tofu ou iogurte diet com granola.
Não compareça a eventos sociais do tipo encontrar uns amigos num barzinho. Sempre tem um ou dois filhos-da-puta fumando na mesa. Mesas de carteado ou de sinuca também devem ser evitadas a todo custo.
Não faça sexo. Como todo mundo sabe, um dos cigarros mais saborosos que se pode fumar é aquele que vem imediatamente após uma bela transa. Ou, também, aquele que se fuma durante os intervalos estratégicos, naquele tempo que se usa para beber alguma coisa, ouvir música e bater papo com a amada, enquanto se recobra o fôlego e se retoma a inspiração – mas essa é uma técnica utilizada apenas por usuários avançados e quem a domina, caso seja fumante, dificilmente será alguém do tipo que abdica dos pequenos prazeres da vida. Logo, ex-fumantes que porventura estiverem lendo este artigo, provavelmente nem sabem do que é que eu estou falando.
Ex-fumantes andam extremamente felizes ultimamente! Aliás, alguns não se sentiam tão bem, desde a última tragada. A entrada em vigor da lei caça-fumantes do governador-candidato Zé Serra propiciou orgasmos de satisfação sádica a esses seres. Alguns devem ter soltado rojões. Outros, foram pra rua, à meia-noite do último dia 7, para acompanhar o início da fiscalização, quando os agentes da Vigilância Sanitária, feito uns soldados da Santa Inquisição, começaram a entrar nos botequins da Vila Madalena e outros bairros chiques da cidade, em busca de perigosos delinqüentes tabagistas.
Lógico que eles sabem que essa lei é um absurdo jurídico. Claro que eles sabem que nenhuma sociedade politicamente consciente permitiria essa absurda ingerência estatal na vida das empresas privadas. Evidente que eles sabem também que isso não vai dar certo e essa será mais uma lei fadada ao esquecimento ou a muitos ajustes. E, mais que tudo, eles sabem que esse circo todo destina-se exclusivamente a colocar o governador na mídia.
Ex-fumantes são chatos, mas não são burros.
Mas eles não estão nem aí! Querem apenas curtir o sabor de sua vitória contra essas pessoas que têm o desplante de continuar usufruindo daquele pequeno prazer cotidiano, do qual eles abriram mão. Imagine com que moral eles agora vão chegar às festas de família ou ao escritório e encarar os “inimigos”: aquele seu antigo discurso pentelho, agora tem amparo legal! Que ninguém mais ouse desacatar seus sermões, porque agora – suprema glória! – eles podem inclusive denunciar os infratores!
E para os amigos fumantes de outros Estados, que já estavam se divertindo às minhas custas, as notícias não têm sido muito boas nos últimos dias! Cariocas, mineiros e paranaenses, tremei! Agora é a vez de vocês! E, como sempre acontece, tudo que São Paulo inventa, o resto do Brasil acha legal e importa. Com exceção do Rio Grande do Sul, todos os outros Estados da Federação têm em relação a São Paulo o mesmo complexo de vira-lata que brasileiros têm em relação aos Estados Unidos: se eles têm, a gente também quer ter!
Ex-fumantes têm ainda mais um motivo de extrema satisfação e alegria! O garoto-propaganda da abertura da temporada de caça aos fumantes é o ídolo maior de todos eles. Sim! Ele mesmo! O personagem mais constante deste blog e um dos mais constantes da vida de todo o povo brasileiro: o onipresente, indefectível e infalível médico pop do Brasil, Draaaaaaauzio Vareeeella!!
Doutor Dráuzio é um exemplar legítimo e o exemplo mais bem acabado de ex-fumante. Não contente em ter deixado de fumar, tornou-se o mais implacável caçador da fumaça alheia. E, como é um médico muito respeitado e muito famoso, graças àquele seu livro, que virou filme, mostrando a vida daqueles detentos legais e bonzinhos que moravam naquele extinto parque de diversões chamado “Carandiru”, Doutor Dráuzio é o centroavante perfeito para a seleção anti-tabagista. Credibilidade total, praticamente um santo, faz tudo por convicção e amor ao próximo.
Eu só achei uma coisinha meio estranha.
É que quando a lei Serra foi discutida na Assembléia Legislativa, meses atrás, pela bancada de deputadinhos amestrados do governador, o Doutor Dráuzio foi lá defender a medida – e o fez de forma apaixonada. Meses depois, quando a campanha de divulgação da lei foi pro rádio e pra TV, quem foi escolhido pra garoto-propaganda?
Curioso, né?
Inclusive eu fiquei procurando nos comerciais de TV, se aparecia alguma legenda informando algo como “o doutor Dráuzio Varella doou seu cachê para o Hospital do Câncer” ... e não achei! Vocês acharam? Não? Pois é, nem eu!
Mas isso nem deve representar muita coisa para alguém que vive de dar palestras. Eu imagino – só imagino – que a agenda dele deva estar mais lotada do que nunca.
Eu sou um sujeito muito maldoso, eu sei.
Mas eu ando mesmo muito interessado em saber quanto CUSTOU esse circo todo da lei anti-fumo. Quanto custou em contratação e treinamento de pessoal? E em equipamentos e viaturas (compraram Unos Mille zerinho, só pra isso, um monte deles!)? E , PRINCIPALMENTE, quanto custou em PUBLICIDADE? Eu, que sou um sujeito mesmo muito maldoso e enxerido, sou capaz de apostar que uns 95% da verba foi destinada a esse último item, para alegria dos departamentos comerciais de revistas, jornais, emissoras de rádio e TV que, coincidentemente, em sua quase totalidade, mostraram-se todos extremamente simpáticos à medida e até abriram grandes espaços para que o governador aparecesse em “esclarecedoras entrevistas de utilidade pública”.
E eu ando perguntando isso por aí, exatamente para esses mesmos veículos de comunicação: vocês acreditam que ninguém me responde?
Ando querendo saber também de quanto foi o cachê do Doutor Pop – aquele que ele certamente doou, mas esqueceu de dizer. Eu sou cidadão deste Estado, tenho o direito de saber, não tenho?
Então eu fui até lá no site oficial do governo (http://www.leiantifumo.sp.gov.br/), cliquei no “perguntas freqüentes” e depois em “dúvidas” (eles são legais, deixam a gente escrever num formulário). Então eu perguntei essas coisas todas.
Vocês acreditam que eles até agora também não me responderam?
Mas não tem problema, não.
Agora eu tenho tempo, não posso mesmo mais ir pro botequim.
Eu não sei como foi com vocês, mas no meu tempo de colégio, lá pelo final dos anos setenta, quando eu e meu pessoal tínhamos treze, catorze anos, começar a experimentar “coisas de adulto” tinha um sabor delicioso de transgressão. Beber e fumar, em especial. Eu acho até que a gente gostava mais da transgressão do que do gosto da bebida ou do cigarro. Acho que isso sempre foi assim e continua sendo.
Estudávamos num colégio alemão, muito metido a besta e super conservador. Namorar, mesmo nas cercanias, usando uniforme, se houvesse toques, beijos, poderia render advertência e comunicação aos pais. Fumar nas dependências do colégio era altamente proibido, praticamente um crime.
E talvez por isso mesmo – porque era MUITO proibido, logo muito excitante – havia uma moda de fumar no banheiro, escondido, um único cigarro passando de mão em mão, de boca em boca, rapidinho, no fim do intervalo, antes de voltar à aula.
Eu me lembro de um caso de “delação” desse “crime”.
Havia um menino, não me lembro de seu nome, apenas de sua figura: esquálido, branquelo, pernas finíssimas, cabelo cor de milho e muito sardento. Tinha uma mãe muito brava que o levava e ia buscar. Regrado, certinho, tímido. E chato, muito chato. Sempre tentava se enturmar e não conseguia, virava e mexia, apanhava de alguém – acho que esse “tipo” sempre houve em todos os colégios. Foi ele que, por vingança ou por puro bom-mocismo, encarnou o dedo-duro – ser dedo-duro, aliás, era uma atividade muito em voga nos anos setenta.
Pois o magrelinho chato denunciou os delinqüentes fumantes.
Não me lembro bem o que aconteceu (eu não estava entre eles), advertência, talvez suspensão, mas me lembro que o magrelo, como não poderia deixar de ser, voltou a levar uns merecidos sopapos tempos depois, quando a poeira já havia baixado.
Eu andei me lembrando disso, porque a delirante lei anti-fumo que – parece – será mesmo implantada em São Paulo a partir dessa semana, tem, entre seus muitos princípios estapafúrdios, um que é muito, muito feio. Justamente: a delação.
Está no texto da lei que qualquer pessoa poderá denunciar a presença de pessoas fumando em locais “proibidos”, por telefone, internet ou através de formulários padronizados, que os próprios estabelecimentos serão obrigados a fornecer.
- Alô, é do anti-fumo? Seguinte: ontem, às quatro da manhã, eu estava no bar “tal” e lá havia pessoas ... fumando!
Beligerância e denuncismo, plantados no ambiente livre e democrático dos botequins, com patrocínio estatal. Qualquer pessoa com quarenta anos ou mesmo os mais jovens com uma razoável cultura da história recente deste país, devem saber o que isso lembra. Que fique assim, no ar: eu tenho até medo de dizer.
Enquanto uma multidão de inocentes úteis acredita piamente nas boas intenções da lei e que ela realmente se destina a cuidar melhor da “saúde pública” e a imprensa descerebrada e obediente abre enormes espaços para a cobertura do grande “evento”, praticamente vedando a manifestação de opiniões contrárias, o governo comemora: o sucesso da operação de marketing, previamente muito bem sinalizada por seus eficientes marqueteiros, vai render os esperados holofotes e um reluzente emblema para seus criadores ostentarem no peito, na próxima campanha eleitoral!
Um factóide criado e pago com dinheiro público, muito dinheiro: contratação e treinamento de pessoas, viaturas, equipamentos e – principalmente, fundamentalmente – PUBLICIDADE! O governador-candidato, dessa forma, mantém-se na mídia, desvia o foco de possíveis pontos falhos de sua gestão, posa de herói. Para isso, nada melhor e mais fácil – e mais covarde – do que atingir uma minoria.
Na prática, demagogia pura, destinada exclusivamente a incomodar e constranger freqüentadores de bares e casas noturnas dos bairros de classe média. Ou alguém acredita que as equipes de inquisidores anti-fumo, comandados pela elegante Dra. Maria Cristina Megid – a chefe da Vigilância Sanitária, que vai aparecer essa semana na TV mais do que a Juliana Paes e que no ano que vem será candidata a deputada (anotem e me cobrem) – vão se embrenhar pelas vielas das favelas para verificar se no interior das biroscas há delinqüentes tabagistas? Ou será que vão promover comandos de caça aos fumantes em botequins, salões de baile funk e forrós das periferias?
Curioso: um dos princípios que desde sempre justificou as ações governamentais no combate ao fumo é o fato de que fumantes, por terem maior tendência a desenvolverem toda a sorte de doenças (pelo menos é o que dizem), causam maiores gastos ao sistema público de saúde. Em sendo assim, que locais deveriam ser priorizados pela fiscalização: os bares da moda da Vila Madalena ou o forró risca-faca, lá no alto do morrão da Brasilândia? Onde será que há mais potenciais usuários do SUS?
Mas a “Lei Serra” tem alguns detalhes que, não fosse ela uma gigantesca filhadaputice, até poderiam ser um pouco engraçados.
Entre suas exceções, por exemplo, a lei menciona “cultos religiosos em que o fumo faça parte do ritual”. Ok, ok, bacana. Quando eu ouvi pela primeira vez falar da lei, foi mesmo uma das primeiras coisas em que pensei: se durante a gira, no momento em que o Caboclo-Fulano-de-Tal descesse e solicitasse seu charutinho aceso, quem estaria desacatando a lei, o médium, o dono do terreiro ou ... a entidade?
Ainda bem que alguém deve ter, quando o texto da lei já devia estar quase pronto, chamado o governador de lado e lhe dado esse toque: doutor Serra, e as religiões? Deve ter sido um integrante de uma dessas ONGs que defendem a “cultura afro”, dessa gente que anda por aí fantasiada de chefe tribal, sabe? Desses que sempre aparecem no noticiário quando o tema é pedir “cotas” para alguma coisa.
Bom, pelo menos isso.
Mesmo assim, eu tenho meus questionamentos a esse respeito. Se existe essa exceção, quero crer que é em respeito a uma tradição, correto? Mas a lei não se propõe a mudar a cultura, passando por cima da tradição? Outra coisa: pulmão de umbandista vale menos do que pulmão de quem professa outra religião? E se eu quiser fundar uma nova religião, eu posso incluir o fumo no ritual? Posso? Se eu resolver fundar a Igreja da Liberdade Irrestrita, cuja liturgia incluirá boa música, boa comida, boa bebida, onde ninguém será obrigado a fumar, mas poderá fazê-lo se tiver vontade, onde todo mundo poderá pensar e falar o que quiser, até altas horas da madrugada, tudo em homenagem ao Orixá Vinicius de Moraes, que será nosso mestre espiritual ... eu posso? E se eu quiser instalar um templo da minha igreja bem no meio da Vila Madalena, onde antes funcionava um bar profano, posso?
Botequim, pra mim, é religião: como é que fica?
Outra das “exceções” da lei de caça aos fumantes é de deixar qualquer um que tenha um mínimo de bom senso, indignado. Sabe o que está “fora” da lei? Os presídios! Sim, pois é: nos presídios não será necessário cumprir a lei!
Raciocinem: o que é um detento? É um cidadão que, por ter cometido um delito, é temporariamente “removido” do convívio social para cumprimento de uma pena de reclusão. Em outras palavras: o cara é privado de sua cidadania pelo tempo em que a pena durar. Ele perde o direito fundamental de ir e vir, ou seja: a liberdade. O cara não pode – pelo menos em tese – dar um passo sem que o Estado saiba: ele fica ali, trancado, vigiado, 24 horas por dia. Durante esse tempo, o sujeito será responsabilidade do Estado, será por ele alimentado, mantido. O Estado é guardião da própria integridade física dele.
Os estabelecimentos prisionais são, com exceção de umas poucas cadeias federais, construídos, mantidos e administrados pelos estados – no Estado de São Paulo, através da Secretaria de Administração Penitenciária. Ou seja: os presídios são órgãos estaduais, como estadual é a lei.
Então, a perguntinha fatal: por que preso pode fumar num “local fechado de uso coletivo” – e o que é pior: público! – e nós não??
No texto da lei: “os estabelecimentos prisionais e as unidades de cumprimento de medidas socioeducativas se sujeitarão a normas próprias.”
Como é que é? Quer dizer que cadeias podem criar “normas próprias” e bares não? Quer dizer que um detento pode ter essa liberdade e eu, que não roubei, não matei, não trafiquei, que nunca nem briguei na rua quando era moleque, não tenho? Quer dizer que o Estado, aparentemente, considera mais “difícil” impor os rigores da lei que criou, à pessoas que estão presas em seus estabelecimentos prisionais e que – pelo menos em tese – nem reclamar podem, do que para quem está... em liberdade?
(Eu disse “liberdade”?)
Óbvio, né? Exatamente isso: como sempre, é muito mais fácil impor coisas a quem é “do bem”. O Estado mal consegue controlar as próprias cadeias, mas para nós, pobres pagadores de impostos, vem todo valente e autoritário, falando grosso, impondo, restringindo, proibindo, normatizando os hábitos no interior dos estabelecimentos privados! Com que direito e com que moral?
Os patrulheiros do bom comportamento, por cegueira, hipocrisia ou simplesmente burrice, não percebem – ou fingem não notar – esse tipo de coisa.
Imaginem impor lei anti-fumo em cadeia! Pois se cigarro na cadeia, todo mundo sabe, serve inclusive como dinheiro! Se o governador se metesse a besta de fazer sua leizinha valer nos presídios, aconteceria uma rebelião monstro, como jamais se viu. E aí, quem ia ser o valentão pra controlar a bandidagem? Os fiscaizinhos da Vigilância Sanitária, com seus monoxímetros?
Aliás, se tem um tipo que, decididamente, não é tolerado no cárcere, é o dedo-duro, o "x-9". Será que tem algo a ver?
Mas é curioso e irônico que essa papagaiada – que não vai valer nas cadeias – tenha como garoto-propaganda e apoiador de primeira hora, justamente o onipresente médico pop do Brasil. Sim, justamente ele, que gosta tanto de presos! Que ficou famoso e certamente ganhou um bom dinheiro com seu livro, que virou filme...
Ô, doutor Dráuzio! Preso também é gente! O senhor não diz na propaganda que respirar um ar mais puro agora é direito de todos? Então! Os pobrezinhos também merecem! É uma questão de direitos humanos!
Vai lá, doutor: peça pro governador fazer a lei valer nas cadeias!
Desde já eu apoio o seu nome para ser o sujeito que vai fiscalizar sua aplicação: não tem ninguém neste país mais capacitado para essa tarefa! Podemos até lhe conceder um bom prazo para isso, quem sabe uns seis meses?
(Pelo menos durante esse tempo, será que ele some das minhas vistas?)
Se o senhor conseguir fazer com que os 125 mil presos do Estado de São Paulo cumpram a sua lei, eu JURO que nunca mais reclamo dela e que também vou cumpri-la direitinho!
Estamos combinados?
Ah, sim: eu comecei este artigo falando de moleques feios, fracotes e dedos-duros, de quem ninguém gostava e que sempre apanhavam. Eu nunca mais tive notícias daquele menino. Mas algo me diz que outros, do mesmo tipo, bem parecidos com ele, podem ter se dado muito bem na vida. Tornaram-se médicos famosos, políticos poderosos.
A gente se deu mal!
Eles venceram. E agora querem se vingar.
Bezerra da Silva & Barão Vermelho "Malandragem, dá um Tempo"
Britânico considerado o homem mais velho do mundo morre aos 113 anos
Henry Allingham era veterano da Primeira Guerra Mundial.
Ele creditava sua longevidade a 'cigarros, uísque e mulheres fogosas'.
Da Reuters
Henry Allingham, veterano da Primeira Guerra Mundial, celebra seus 112 anos em junho de 2008 (Foto: AP)
O britânico Henry Allingham, considerado pelo Livro Guinness dos Recordes o homem mais velho do mundo, morreu neste sábado (18) aos 113 anos.
O veterano da Primeira Guerra Mundial morreu durante o sono em uma clínica em St. Dunstan, próximo à cidade inglesa de Brighton, segundo seu amigo Dennis Goodwin. Ele deve ser velado e enterrado em Brighton.
"É o fim de uma era, um geração especial e muito própria", disse Goodwin. "O povo britânico deve muito a ele."
Allingham nasceu em Londres no dia 6 de junho de 1896, e ganhou o título de britânico mais velho em 19 de janeiro de 2007, com 110 anos e 227 dias, informou o Guinness em um comunicado.
Henry Allingham recebe a Legião de Honra do governo francês em 16 de março, em cerimônia na embaixada da França em Londres. (Foto: AFP)
Allingham era um dos únicos dois veteranos britânicos sobreviventes da Primeira Guerra Mundial, e o último sobrevivente entre os fundadores da Força Aérea Real, de acordo com a mídia britânica.
A vida de Allingham passou por seis reis, começando com a Rainha Vitória. Ele teve cinco netos, 12 bisnetos, 14 trinetos e 1 tetraneto.
O Guinness informou que a pessoa mais velha do mundo é a norte-americana Gertrude Baines, de 115 anos, que nasceu no dia 6 de abril de 1894.
Sua receita de longevidade era “cigarro, birita e mulher”.
Eu gostaria MUITO de saber, o que têm a dizer sobre isso, os escoteiros ativistas do modelo de vida politicamente correto, pautado por “bons hábitos”. Queria saber o que dizem sobre isso os chatinhos histéricos da onda anti-tabagismo.
Provavelmente vai aparecer alguém para dizer:
- Ta vendo? Morreu! Se não fumasse, teria vivido mais!
(Hã?)
Fumar faz mal?
Potencialmente, sim – assim como outros tantos hábitos de consumo podem, potencialmente, propiciar o desenvolvimento de moléstias de todos os tipos.
Carne vermelha, gorduras, lactose, bebidas alcoólicas, vegetais com agrotóxicos, ar condicionado, exposição ao sol: tudo isso pode gerar doenças e, como última conseqüência, matar.
Numa grande cidade, respirar pode ser um grande risco.
E, se estamos falando de “risco de morte”, a primeira coisa que deveria ser proibida pelos sentinelas da longevidade alheia, seriam os esportes radicais! Sim! Pára-quedas, body jump, jet sky, skate, bicicross, asa delta: tudo isso é extremamente perigoso – alguém nega? O sujeito, na flor da juventude, pode dar com os cornos no chão e morrer. Ou, numa hipótese otimista, passar o resto da vida numa cadeira de rodas.
No entanto, eu não vejo nem sinal de proibição para a realização dessas atividades, nem “ONGs” se mobilizando para banir essas práticas abomináveis e perigosas da sociedade moderna. Também não vejo o médico pop oficial do Brasil, na TV, alertando contra o risco dessas coisas. Pelo contrário: a prática desses esportes é associada à uma vida saudável, arrojada. São coisas glamourizadas pelo senso comum. Como, aliás, o hábito de fumar também já o foi, num passado nem tão remoto.
Aliás, por falar no honorável doutor, o médico pop ... Já repararam que esse senhor parece onipresente? Você liga a TV, ele está lá. Liga o rádio, ele está lá. Nos jornais, revistas, portais de Internet: em todo canto uma coluna dele, repreendendo algum hábito, alertando sobre o risco de alguma coisa, “anunciando” uma nova doença. Eu tenho pesadelos com ele! Parece uma assombração, sempre à espreita para me dizer que eu estou prestes a pegar alguma bereba ou contrair uma nova desgraça. Eu tenho a sensação de que um dia desses, vou abrir a geladeira e ele vai estar lá dentro, fazendo discurso contra o consumo de algo que eu gosto de comer. Ou que eu vou abrir a porta do guarda roupa e ele vai sair de dentro de uma gaveta, mandando eu me agasalhar porque está frio e eu posso me resfriar! Credo, parece um padre de cidade pequena, espiando pra ver se o povo não comete pecado!
Fato é – perceba quem quiser, quem puder – que nos tempos atuais, pelo menos entre nós, ocidentais, a moderna medicina ocupou o lugar que já foi da IGREJA. As pessoas acatam o que os médicos dizem como fossem mesmo “dogmas”. Quem vai discutir um conselho médico? A imposição acontece de forma idêntica ao que a igreja católica fez durante séculos: se você segue suas vontades, será castigado – não com o "inferno", mas com doenças! Sempre o estão “castigando” por aquilo que você faz.E, também como sempre houve na religião, há os beatos fanáticos, sempre prontos para "excomungar" quem ousa levantar a voz contra os preceitos "absolutos". Só que, ao invés de uma Bíblia, normalmente eles trazem debaixo do braço uma pilha de estatísticas. E, em vez de se reunirem em grupos de evangelização, o fazem em ONGs – que têm como finalidade aborrecer quem com eles não compactue, até que os consigam convencer.
Os políticos, raposas espertas, "captam" o movimento e criam suas leis, restritivas, punitivas – fazem com que alguns acreditem que estão preocupados com a "saúde pública", mas na verdade só estão interessados num "emblema" para pendurarem no peito na próxima campanha eleitoral.
Nas últimas duas décadas, os arquitetos do bom comportamento elegeram o inimigo público número um: o cigarro, como todo mundo sabe. Ao hábito – milenar – de fumar, associaram toda a sorte de misérias, da impotência ao câncer, da perda de dentes à queda de cabelo, sempre baseados em pesquisas tidas como conclusivas e de valor absoluto. Deflagrou-se uma sistemática perseguição, que beira a histeria e que parece não ter mais limites. Os inquisidores da fumacinha alheia parece que só vão dar-se por satisfeitos no dia em que o último dos fumantes for queimado em praça pública. Decretou-se que fumantes são feios, sujos, malvados, vilões da saúde pública, mal educados, deselegantes, fedorentos, pecaminosos, além do “óbvio”: envelhecem, adoecem e morrem mais cedo (revoguem-se todas as disposições em contrário, publique-se!).
Por oposição de idéias, deve-se concluir que os não-fumantes são, via de regra, muito mais legais e, mesmo na idade avançada, chegam mais inteiros, vigorosos, interessantes e sexys,
Em vista disso, eu quero propor uma enquete exclusivamente às meninas que freqüentam este site. Meninas, respondam.
Com qual dos três sessentões abaixo vocês avaliariam a possibilidade de passar uma noite?
José Serra
Drauzio Varela
Chico Buarque
Apenas a título de esclarecimento, José Serra, hipocondríaco notório, politiqueiro profissional, candidato à Presidência e atual governador de São Paulo, tem 67 anos; Dráuzio Varela, médico epidemiologista e onipresente astro pop do comportamento regrado, tem 66; Chico Buarque, compositor, escritor e fumante desde muito ante de compor A Banda, tem 65.
Paulo Autran era um fumante abusivo e inveterado. Dizem que fumava quatro maços por dia, o que significa oito vezes o que um fumante médio consome. Foi um dos maiores nomes da história dos palcos no Brasil e trabalhou incessantemente até pouco antes de morrer. Inteligente, ousado, criativo, inovador. Morreu de câncer de pulmão, sim: aos 86 anos (a expectativa média de vida na região Sudeste do Brasil é de 73,5 anos). Se não fosse uma chaminé, viveria mais tempo? Talvez. Mas, se assim fosse, será que não seria menos Paulo Autran?
Cigarro, bebida, comida, sexo: tudo PODE fazer mal - e matar. Muito mais ainda se for em excesso. Fato é que os organismos humanos não são todos iguais e o que pode deixar alguém muito doentinho, não causa quase nada a outra pessoa. Ou, se causar, vai ser lá mesmo pelo fim da vida, quando todas as defesas se enfraquecem naturalmente. O que os doutores-patrulheiros parecem não entender, é que as pessoas não são coisas matemáticas, não são estatísticas: e que TODOS – sim, todos! – morrem!
Mas há uma coisa que CERTAMENTE faz MUITO mal e leva, com ABSOLUTA CERTEZA, à morte precoce: INFELICIDADE!
A infelicidade, por exemplo, de ser privado do que lhe causa prazer, dos hábitos que cultua, do seu estilo de vida. Aquilo que faz você ser você, seja lá o que for. Tristeza, saudade, falta de motivação, sensação de inadequação ou de inutilidade, decepção, descrença, preguiça: isso, sim, mata. E mata de forma cruel e dolorida.
A idéia de se abdicar dos pequenos prazeres ou das grandes experiências, numa suposta “troca” por alguns miseráveis instantes a mais de vida, é de uma imbecilidade completa.
Feliz foi Henry Allingham.
Uma vida completa, intensa – a maior parte dela vivida longe desse patrulhamento insano – e ainda, como suprema glória, “brindado” por uma morte serena, durante o sono.
Cigarro, uísque e mulheres.
Ele era britânico, eu sou brasileiro. Troco o uísque por uma boa cachaça de alambique. E nem faço questão de chegar aos 113.
Só queria que os chatos parassem de me amolar.
E vivas à vida, enquanto ela tiver que durar, com todos os seus podres e deliciosos sabores.
”Se com ele, pois, houver um mensageiro, um intérprete, um entre milhares, para declarar ao homem a sua retidão, então terá misericórdia dele, e lhe dirá: Livra-o, para que não desça à cova; já achei resgate. Sua carne se reverdecerá mais do que era na mocidade, e tornará aos dias da sua juventude.”
(Jó, 33: 23, 24 e 25)
A primeira aparição misteriosa acontecerá dentro de aproximadamente quatro anos. O local será cuidadosamente estudado e, embora o plano inicial fosse de que acontecesse nas cercanias de algum campo de refugiados na África, acabará se optando pela localidade de Beit Hanoum, na Faixa de Gaza – povoado que estará sendo arrasado por bombardeios do exército israelense, em mais uma onda de conflitos que assolarão aquela região.
Lá, um garoto de presumidos 11 anos, de nome Mahmud, afirmará a tantos quanto encontrar que viu a aparição no alto de uma colina, a pouco mais de 500 metros de um posto de observação do exército de Israel. Dirá que ele vestia uma túnica branca, que tinha a pele muito clara, que tinha os cabelos ao vento, que sorriu e acenou – e desapareceu em poucos segundos, em meio a uma nuvem de areia levantada por um vento mais forte.
Confrontado com inúmeras fotos e imagens, Mahmud dirá sem qualquer hesitação que “sim”, foi aquela pessoa que ele viu – muito embora o menino não tivesse, até então, sequer idéia de quem fosse aquela pessoa.
Transformado em celebridade mundial instantânea, pela velocidade com que a notícia se espalhará pelo mundo – principalmente pelo Twitter e por outros meios de comunicação on line –, Mahmud será procurado, entrevistado, fotografado e filmado por jornalistas de todo o mundo. Em entrevistas exclusivas concedidas à CNN e à BBC, Mahmud confirmará sua história e revelará qual o seu maior sonho: que ele, sua família, seu povo pudessem viver em paz, que os intermináveis conflitos na região acabassem, que não houvesse mais bombas, nem tiros, nem morte...
Mahmud dirá ainda que a “aparição da colina” foi quem o inspirou a lutar pela paz entre os povos e que, daquele dia em diante, ele passara a acreditar que a mesma era possível.
Causando uma onda instantânea de comoção planetária, Mahmud – ao mesmo tempo em que terá seu rosto estampado em camisetas, botons, capas de revista e primeiras páginas de jornais – levará os olhos do mundo todo para a região, influenciará as lideranças, desqualificará e desmoralizará os motivos do conflito e, em poucas semanas, conseguirá o inimaginável: um cessar fogo, total e definitivo, com Israel desocupando completamente a região, reconhecendo o Estado Palestino, o Hamas prometendo se desarmar e direcionar toda a sua estrutura para o trabalho humanitário na região.
Pouco tempo depois, será inaugurada uma estátua da “aparição da colina”, exatamente no local onde Mahmud afirmará tê-la visto, em cerimônia que também celebrará a reconstrução da região e que contará com as ilustres presenças do primeiro ministro de Israel e do presidente americano, Barack Obama, que será o mediador do processo de paz.
Mais popular do que Mahmud e do que Obama, apenas a “aparição da colina”: em meio ao fato, todas as espécies de produtos licenciados com sua marca terão suas vendas multiplicadas em todo o mundo. Indiferentes aos milhões de céticos que classificarão o ocorrido como uma simples “alucinação” de um menino, antigos e novos fãs tratarão de alçar a “entidade” à categoria de um quase-santo.
A segunda aparição se dará pouco menos de um ano após a primeira e acontecerá no Rio de Janeiro, no bairro de Botafogo, mais precisamente no Morro Dona Marta.
Lá, um garotinho de apenas 5 anos, chamado Maicon, terá com a “entidade” um contato ainda mais próximo. Suas irmãs, Suellen e Meriellen, de 9 e 11 anos, respectivamente, responsáveis por cuidar do irmão enquanto a mãe, a diarista Karollaynne, se encontrasse no trabalho, se distrairão por uns instantes e, apavoradas, notarão que o pequeno desaparecera. Depois de muito andar pelas vielas da favela, chamando “Maicon, Maicon!”, finalmente o encontrarão no fim de um beco, sentado no colo da “aparição” – e, segundo relato das meninas, estariam ambos envoltos em uma forte luz. Paralisadas, as meninas assistirão a cena do “visitante” carinhosamente se despedindo do menino, antes de desaparecer em meio a um clarão misterioso.
Com o irmão sendo passado sucessivamente do colo de uma para o colo de outra, como fosse um pacote, Suellen e Meriellen sairão em correria pela favela gritando a plenos pulmões:
- Maicon! Maaaaaicon!!
Os vizinhos não entenderão nada:
- Mas já num encontraram o menino? Óia o Maicon aí, menina doida!
Demorará algum tempo para as meninas conseguirem recobrar o fôlego e explicar aos incrédulos o que se passara, e, em poucas horas – com a devida permissão do “dono do morro” –, a favela será invadida por equipes de reportagem e por um batalhão de curiosos.
O fenômeno da Faixa de Gaza se repetirá e, instantaneamente, Suellen, Meriellen e principalmente Maicon, se tornarão celebridades mundiais. Em entrevista exclusiva à Patrícia Poeta, no Fantástico, o garotinho balbuciará algumas palavras que ninguém entenderá direito, mas todos acharão lindo. Suellen chorará muito durante a entrevista porque, segundo ela, lembrar do ocorrido a “deixa muito emocionada”. Mas Meriellen dirá que acha que a “aparição da favela” veio trazer “uma mensagem de paz para o Brasil.”
Convidados de honra para o camarote da presidente Dilma para assistirem, no Maracanã, à final da Copa do Mundo entre Brasil e Argentina, os irmãos “preferirão” aceitar o convite da Rede Globo – e verão o jogo ao lado de Galvão Bueno. Ao final da partida, com o Brasil campeão, Maicon receberá das mãos do capitão Kaká uma camisa da seleção autografada por todos os jogadores.
No Dona Marta, diante da romaria de visitantes de todas as partes do mundo – jornalistas, cientistas, parapsicólogos, videntes, sensitivos, religiosos, artistas e políticos –, um fato impensável ocorrerá: o “dono do morro”, reunido com seu staff, decidirá interromper suas “atividades comerciais” e investir em turismo! Num acordo inédito com as autoridades locais, celebrado por todos como um exemplo avançadíssimo de PPP – Parceria Público-Privada –, implantarão juntos no morro, uma série de melhorias, que irão desde saneamento básico, asfaltamento e iluminação, até a instalação de elevadores panorâmicos e a construção de um shopping center e de um hotel – ambos receberão o nome da “aparição”.
Ao mesmo tempo perplexo e maravilhado, o mundo todo passará a falar sem parar nos misteriosos eventos. Durante muito tempo, praticamente não haverá outro assunto nos noticiários. O grande ícone passará a ser celebrado em toda parte como uma espécie de “messias”, uma aparição que, por onde passa, leva paz e prosperidade aos povos.
“Alucinação”, “fraude”, dirão os céticos. Alheios a isso, fãs de todo mundo, agora mais corretamente classificados como “seguidores”, darão um novo impulso às vendas de tudo que se refere ao ídolo, movimentando bilhões. Os detentores legais dos direitos de imagem, de licenciamentos e autorais da obra do grande ícone, destinarão grande parte dos lucros – e farão absoluta questão de mostrar isso ao mundo da forma mais espetaculosa possível – a entidades beneficentes e obras sociais de todas as espécies.
As pessoas passarão a se perguntar onde será a próxima aparição. Por toda parte haverá palpites, apostas. Mais que isso, comunidades de todo canto passarão a “pedir” para que a “entidade” apareça em suas regiões. Grupos se reunirão para montar santuários, construir “campos de pouso” e edificar estrambóticos “palcos” nos lugares mais ermos e inusitados da Terra, para receber uma possível aparição do grande ídolo.
De fato, as aparições continuarão, embora apenas algumas serão classificadas como “autênticas” pelos grupos de estudos que se formarão especialmente para esse fim. Entre elas, uma em Bancoc, na Tailândia, uma numa região árida do Sudão, uma num povoado rural da China, uma em Soweto, Joanesburgo, na África do Sul. Em uma contestada aparição no bairro do Harlem, em Nova York, alguém conseguirá, com um celular, filmar o evento por cerca de 3 segundos. As imagens – distorcidas, tremidas e feitas de longe, de um carro em movimento – correrão o mundo exibidas pela TV e pela internet e serão exaustivamente estudadas por especialistas que não chegarão a nenhum parecer conclusivo.
Mas o fato mais estarrecedor ainda estava por acontecer.
“Mas, dando ele um presente da sua herança a algum dos seus servos, será deste até ao ano da liberdade; então tornará para o príncipe, porque herança dele é; seus filhos a herdarão.”
(Ezequiel 46:17)
Muito tempo antes de as aparições começarem, numa comunidade rural do estado americano do Missouri, numa cidadezinha chamada Jacksonville, será criada uma igreja, precursora de uma nova religião. Batizada como “The First Moonwalker Church” e fundada pelo ex-músico, ex-pugilista e ex-presidiário Jason Demétrius Brown, a “Moonwalker” será dedicada justamente à adoração do Grande Ícone – e terá uma grande imagem Sua fixada atrás do púlpito, de onde o auto proclamado “missionário” Jason proferirá suas pregações.
Os seguidores do missionário acreditarão na sua teoria (que ele preferirá chamar de “revelação”) de que o Ídolo regressará dos mortos para guiar os escolhidos pelo caminho do amor, da paz e da fortuna. Os cultos da nova igreja se caracterizarão por terem muita música e dança em suas celebrações. Para legitimar sua fé, os adeptos da Moonwalker se dedicarão ainda a vasculhar toda a “obra terrena” do Ídolo – estudando fotos, filmes, rodando discos para trás –, à procura de mensagens e sinais deixados por Ele.
Inicialmente classificada como mera bizarrice fanática, a Moonwalker Church ganhará notoriedade mundial quando começarem as aparições – e também milhões de adeptos em todas as partes do planeta. No Brasil, por exemplo, os espetaculares templos da Moonwalker reunirão em seus cultos, desde pessoas humildes até artistas – por alguma razão, será difundida a crença de que os cultos da nova igreja teriam o poder de operar autênticos milagres no sentido de impulsionar carreiras de artistas decadentes, razão pela qual ela passará a ser procurada por cantores, atores e ex-participantes de realities shows. Terá entre seus simpatizantes ainda, muitos jogadores de futebol, que comemorarão seus gols reproduzindo, à beira do gramado, os passos mais característicos de dança do Grande Ícone – e se tornarão, com isso, grandes divulgadores da nova fé.
Numa noite, na sede mundial da Moonwalker, durante um de seus vibrantes cultos, o missionário Jason revelará ao mundo que seu filho, o jovem Michael Brown, 12 anos, passara a não só ter “contato” com a “aparição”, como a receber do Grande Ícone inspiração para continuar Sua obra na Terra! Diante dos olhos assombrados da multidão de fiéis presentes e de outros milhares que estarão acompanhando pela TV, Michael dará a primeira amostra de sua ligação com o Ídolo, apresentando – devidamente acompanhado por grupo musical e bailarinos coreografados – uma canção inédita que em tudo lembrará o estilo inconfundível do Grande Astro.
As circunstâncias dos contatos entre o jovem Michael Brown e o Grande Ícone jamais serão totalmente esclarecidos, uma vez que o menino viverá em isolamento completo, tratado como uma espécie de objeto sagrado, proibido de conceder entrevistas e “blindado” por seu pai e pelo alto prelado da Moonwalker Church contra qualquer tentativa de aproximação com o mundo externo.
Fiéis confirmarão que o garoto, desde muito cedo, revelou-se, nos cultos, excepcionalmente talentoso como cantor e dançarino, e que, mesmo antes da “revelação”, muitos apostavam que ele seria uma espécie de “escolhido” para suceder o Grande Ícone.
Boatos se espalharão, dizendo que os “encontros” entre Michael Brown e a Entidade já aconteciam há alguns anos, sempre em uma espécie de santuário secreto, construído pelo missionário Jason em uma das muitas propriedades da igreja – e que o garoto, desde então, estaria sendo “preparado” pelo próprio Ícone para continuar Sua obra na Terra.
Céticos, como sempre, tratarão de desqualificar o fato, chamando o jovem Michael de “fraude” e de simples “imitador”. Fãs, contudo, identificarão nele o estilo inconfundível e em pouco tempo, o elevarão a novo astro mundial: Michael Brown venderá milhões em todo tipo de produto ligado à sua arte e à sua imagem e seus shows atrairão multidões nunca vistas.
Para espanto geral, o jovem artista assinará as novas composições “em parceria” com o Grande Ícone. Os valores provenientes de seus direitos autorais e de veiculação – como de resto, todos os valores arrecadados com shows, filmes e produtos licenciados – serão divididos entre a fundação criada pelos detentores dos direitos legais do Grande Ícone e a Moonwalker Church. E, diante do verdadeiro cataclisma causado pelo surgimento do novo astro, precedido pelas misteriosas aparições, e pelo misto de entusiasmo artístico e idolatria religiosa que cercará suas atuações, os valores auferidos serão os maiores já vistos no mundo do show business.
O Grande Ícone assim, tal qual um messias retornado à Terra do mundo dos mortos, como que reencarnado no corpo de um jovem e talentoso artista, com seu nome e sua imagem ilibados, transformados em algo quase sacro, viverá novamente entre os homens. Para sempre.
O jovem Michael Brown terá sido, de fato, um achado.
Localizar, identificar e preparar um sucessor era, desde o início, parte do plano. Mas, encontrar um jovem tão talentoso será motivo de intensa comemoração entre o astro e os articuladores do grande projeto. Todavia, a fundação da igreja, bem como o local escolhido para sua sede, terão sido, digamos, “artificialmente inspirados”.
As “aparições” foram sugeridas ao astro por um de seus auxiliares mais próximos, como forma de preceder sua “volta” na pele do sucessor, devendo acontecer cercadas de muitos cuidados, em locais escolhidos com muito critério. Sempre para crianças. Sempre em comunidades carentes, assoladas por guerra, fome, doença, violência, em que um evento dessa natureza terá o poder de causar transformações, levando para lá os olhos do mundo inteiro e associando a imagem do ídolo à benemerência, ao progresso e à paz.
Surgir misteriosamente nessas localidades ermas e desaparecer em seguida, entre clarões misteriosos e nuvens de poeira, será o menor dos problemas para quem sempre cercou-se dos melhores profissionais do mundo na criação de efeitos especiais – nem mesmo será necessário que o artista esteja mesmo presente, fisicamente, em todos esses eventos.
O grande projeto começou a ser articulado dois anos antes de ser deflagrado com a “morte” do astro. Com a carreira há muito decadente, a credibilidade abalada pelo envolvimento em escândalos, as dívidas chegando a valores estratosféricos e o status de ídolo mundial trocado pelo rótulo de aberração, o engenhoso plano foi a melhor e mais honrosa saída encontrada.
O resultado era previsível. O mundo se “esqueceria” subitamente de tudo o que de ruim estivesse associado ao artista e passaria a reverenciá-lo novamente, como não o fizera nem em seus momentos de maior sucesso. Numa sociedade hipócrita, a morte tem o dom da santificação. Na esteira da surpreendente tragédia, seus discos, vídeos e produtos licenciados passariam novamente a render milhões em todo planeta.
A execução do plano, contudo, deveria ser precedida por minuciosa preparação. A equipe formada apenas pelo artista e por um número mínimo de assessores de sua total confiança – e todos regiamente recompensados –, teve como primeira tarefa, localizar um patrocinador para o grande projeto. Um príncipe da corte real de um dos Emirados Árabes Unidos, um admirador fervoroso do artista, entusiasmou-se com a perspectiva de financiar tão audacioso plano. Em troca, receberia, além de dividendos futuros, duas inestimáveis recompensas: periódicas apresentações privadas do ídolo, absolutamente sigilosas e limitadas à sua corte e ver boa parte da civilização ocidental “de joelhos”, chorando, ludibriada por um ardiloso projeto por ele bancado.
Assessores jurídicos trataram de tomar todas as providências necessárias para que o espólio do astro, após sua “morte”, jamais caísse em mãos erradas.
Especialistas em marketing prepararam o terreno, concebendo e anunciando uma apoteótica volta do artista aos palcos, numa mega turnê mundial – o que jamais aconteceria.
O dublê foi escolhido com muita antecedência. A ele não foi exigido nenhum dom ou talento especial, apenas que tivesse com o astro uma semelhança mínima em peso e altura: os cirurgiões plásticos, profissionais com os quais o artista teve estreita relação durante toda a vida, se incumbiriam do resto. Contudo, esse homem deveria ter uma específica “qualidade”: deveria ser um paciente terminal, de moléstia não degenerativa, com um tempo restante de vida que coincidisse aproximadamente com a data estipulada para que o plano fosse deflagrado.
O homem, que recebeu como recompensa uma vultosa soma para deixar como herança a seus poucos familiares mais próximos, deveria inclusive fazer algumas rápidas aparições públicas no “papel” do artista – e o fez, o que explica a aparência notadamente debilitada do astro e – nas poucas vezes em que apareceu em público sem uma bizarra máscara – as feições alteradas a ponto de causar espanto em quem o viu:
- Nem parece a mesma pessoa! – diriam muitos.
O plano chegou a correr um sério risco quando um súbito agravamento do estado de saúde do dublê, antes do esperado, antes que todas as providências estivessem tomadas, quase colocou tudo a perder. Contudo, a equipe médica, peça fundamental do grande projeto desde sua concepção, conseguiu mantê-lo vivo – à custa de medicação e de coma induzido – até o momento que os integrantes da equipe chamavam de instant zero: quando um telefonema feito da residência do artista para o serviço de emergência local, solicitando a presença de paramédicos, informaria que lá havia um homem em parada cardíaca.
Nesse instante, o astro já estava muito longe: cerca de vinte e quatro horas antes, viajara incógnito numa aeronave particular, destinada especialmente para essa finalidade por Sua Majestade Real, o príncipe. Devidamente instalado num castelo às margens do Golfo de Omã, pode assistir de camarote à mais impressionante atuação de toda a sua carreira. Nada tão espantoso para alguém que concebeu um personagem e que, ao longo da vida, literalmente transformou-se nele.
Não pode, todavia o astro, evitar algumas manifestações de desagrado ao ver o espetáculo cafona em que seus familiares, ávidos por amealharem alguns trocados, transformaram seu funeral. Mas emocionou-se ao ver a romaria de fãs se acotovelando para ver, por um instante que fosse, o caixão banhado a ouro, evidentemente lacrado. Nos dias seguintes, divertiu-se com todas as especulações da imprensa mundial a respeito do destino do corpo, da causa da morte, dos resultados da autópsia, dos traços de medicamentos controlados encontrados no cadáver e das teorias levantadas por gente em todo mundo – especialmente blogueiros – apontando uma possível farsa.
Riu muito também com supostas aparições de seu “fantasma”, algumas até “documentadas” por cinegrafistas.
- Isso é coisa nossa? – perguntou a seus assessores, em tom de comédia.
No momento, o astro já se encontra instalado naquela que será sua residência fixa pelos próximos anos: um antigo mosteiro nos confins do Nepal, especialmente comprado e adaptado para abrigá-lo. Será servido por uma equipe de jovens monges, que, por terem passado toda a vida em completo isolamento, sequer desconfiam da identidade do hóspede e foram levados a crer que o mesmo trata-se de uma divindade. Passará a maior parte do tempo deitado em uma câmara hiperbárica, submetido à permanente tratamento de renovação celular e recebendo alimentação especial intravenosa – acreditam, o astro e sua equipe, que o processo não só evitará por tempo indeterminado o seu envelhecimento, como o fará rejuvenescer. Não descartam ainda lançar mão de técnicas de criogenia. Os melhores cirurgiões plásticos, evidentemente, também estarão a postos para possíveis retoques.
O artista prepara-se para o retorno.
Inicialmente através, sim, do sucessor escolhido.
Mas o ponto culminante do grande plano é a volta, de fato, do próprio artista à cena mundial. O evento ainda não tem data definida, podendo acontecer dentro de 15, 20, talvez 30 anos – tudo dependerá do desenrolar do projeto, do desempenho do sucessor em manter viva e santificada a imagem do astro e do grau de aceitação da sociedade a respeito da veracidade da ligação entre os dois.
Depende também de aprimoramento tecnológico, o que deverá acontecer brevemente.
Concebe-se o retorno do astro num espetáculo a ser realizado simultaneamente em todo o mundo, através de transmissão de imagens holográficas, a partir de um local secreto. O artista surgirá gigantesco sobre todas as maiores cidades do planeta, dançando e cantando em sua melhor forma, anunciando aos povos que foi capaz de vencer a própria morte e que retornou. Para comprovar a todos que não se tratará de truque com imagens gravadas, debaterá com lideranças mundiais a respeito de fatos relevantes da política mundial naquele momento. Aos céticos, confirmará a veracidade de suas aparições e a autenticidade de seu sucessor. Evidentemente, não entrará em maiores detalhes, nem responderá a perguntas a respeito de sua “ressurreição”. Apenas encantará o mundo e desaparecerá, para retornar de forma episódica e incerta.
Deixará, todavia, uma certeza: ele voltou para retomar seu lugar!
Os seguidores da religião fundada logo após sua morte, que a essa altura deverão ser milhões em todo o mundo, em êxtase, passarão a tratar a data como sagrada: o dia do Seu anunciado retorno! Preparar-se-ão para receber, a partir dela, uma nova multidão de adeptos.
Os últimos céticos da Terra, ainda tecerão teorias e explicações. Investirão tempo e recursos em exaustivas investigações, em busca de respostas lógicas – e terão contra eles um exército de opositores, cada vez mais crentes, cada vez mais fervorosos, cada vez mais religiosos.
Contudo, terão como emblema duas idéias.
Primeiro, a de que a aceitação de toda história, sempre dependeu, sempre dependerá – no passado remoto, no presente e no futuro – da maneira como é contada e do desejo (ou mesmo da necessidade) das pessoas de a aceitarem..
Segundo, de que Deus é apenas algo em que se acredita.
E existirá, se assim se acreditar.
“Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?”
"Nunca conheci quem tivesse levado porrada
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (...)
Ó príncipes, meus irmãos.
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?"
("Poema em Linha Reta" - Fernando Pessoa/Álvaro de Campos - 1930)
Eu podia encontrar um amigo no botequim na sexta-feira à noite para jogar conversa fora, e eu podia acender um cigarro, que eu comprara legalmente, com meu dinheiro e sobre o qual recolhera impostos, sem temer me constranger com o olhar de reprovação do chatonildo esverdeado da mesa ao lado, nem me sentir criminoso por isso.
Eu podia sair do cinema com minha namorada e tomar com ela uma garrafa de vinho no jantar, sem recear ser parado pela polícia e tratado feito bandido, ainda que crime nenhum eu tivesse cometido e ainda que eu estivesse dirigindo com dobro de cautela, como faço e sempre fiz, após beber. Os politiqueiros tupiniquins ainda não haviam trazido para a vida real a trama absurda de Minority Report, aquele filme em que o sujeito é enquadrado antes de cometer o crime.
Eu podia andar despreocupado com meu carro, pelas ruas da minha cidade, sem ter a sensação de que mil olhos me espreitam e que ao mais insignificante descuido, me flagrarão e fotografarão – e me tomarão dinheiro. Tudo evidentemente justificado pelo nobilíssimo fim de estarem zelando pela segurança pública e – claro, claro! – pela minha própria. Bons aqueles tempos em que eu deveria temer ser ameaçado, extorquido e roubado apenas pelos ladrões.
Eu podia ir ao estádio de futebol sem ter medo de topar com uma horda de moleques assassinos, desprovidos de qualquer rudimento de ideologia, valentões apenas por andarem em bandos e abrigarem-se sob a bandeira, não de um time, mas de uma falange. E lá, eu podia ver os craques da seleção em campo, porque era aqui que eles jogavam. E eram gente parecida com a gente, suavam a camisa, se engalfinhavam, saiam do campo sujos de barro, não se assemelhavam a atletas robóticos, nem se comportavam como astros da música pop.
Eu podia falar as palavras que eu quisesse e dar os nomes certos pras coisas. Eu podia falar preto, branco, amarelo, gordo, burro, aleijado, anão, retardado, rico, pobre, favelado, vagabundo, viado, filhodeumagrandessíssimaputa, sem me deparar com a expressão hipócrita dos que se importam mais com a forma do que com o conteúdo do que se fala.
Saudade que eu tenho de andar pelas ruas do passado e de entrar nos bares que já não existem mais. Saudade do Café Brasil e do Café do Bixiga, do Beleléu e do Vou Vivendo, de ouvir uma música de consistência, de encontrar gente com consistência, de conhecer e amar mulheres com consistência, do tipo que já não se conhece mais.
Tempo em que a minha música, os meus hábitos e gostos, as minhas atitudes, gestos, palavras e pensamentos não pareciam estar em desacordo com um certo senso comum, que, brotado não se sabe de onde, toma de assalto todas as fibras da sociedade, soterrando num porão de isolamento, quem com ele não compactue e que, não raro, captado pelos espertalhões que se alojam em todas as esferas de poder, sedentos por um holofote fácil, são transformados em estrambóticas leis – e o que era inadequação, torna-se clandestinidade.
E nós, que pensávamos saber o que era uma ditadura.
Vergonha que eu sinto da geração que eu ajudei a colocar no poder! Todos transformados em politicopatas profissionais, que se arvoram em paladinos das amplamente justificáveis “ditaduras virtuosas”. Quem os viu, quem os vê, meus caros! Outrora ideólogos apaixonados, hoje meros e obedientes lacaios dos verdadeiros governantes: os marqueteiros!
Eu ando ficando triste. Cada vez mais triste. E a cada dia tenho menos vontade de tentar encontrar, neste mundo de hoje, um espaço onde o meu pensamento não se sinta um paquiderme solto numa loja de cristais. Ando perdendo a paciência com essa juventude boçal, para a qual o máximo de transgressão e ousadia parece ser posar para fotos com copos de bebida na mão ou fazer uma tatuagem. Ou as duas coisas. Exceções? Sim, há. Mas a garimpagem me cansa, entedia. Dos mais velhos, dos livres-pensadores e idealistas de outrora, quase não tenho notícias. Imagino-os enquadrados e adaptados, ainda que à força. Imagino-os cultivando bovinamente seus barrigões, suas calvas e celulites, preocupados com os hábitos dos filhos adolescentes.
Certos estão eles, fora da ordem estou eu.
Eu, teimoso, renitente, que me recusei a pendurar a farda e ir para a reserva. Sobrei sozinho no meio da praça, segurando uma espada e uma bandeira – e o combate já não era meu. Os meus heróis eram outros, eram humanos. E eu não consigo me conformar com o modelo ambicionado de bom-mocismo de hoje, essa gente limpinha, engomadinha, perfumadinha, que não fuma, não bebe e não joga, parida e criada no ar condicionado, toda uma geração de Barbies e Kens, de Kakás e Sandys, que freqüentam passeatas pela paz fazendo sinal de pombinha com as mãos, que não falam palavrão, que não suam nem menstruam, com suas roupinhas de marca, suas estranhas noções de ética, seu estreito entendimento do que é democracia, seu pensamento raso, sua comidinha natural, suas camisinhas e seu medinho de pegar doencinhas.
Não tenho mais idade, nem ilusões, nem energia para supor que eu possa, mesmo que minimamente, contribuir para mudar o mundo. Não tenho sequer mais tempo para isso. Nem interesse. Todavia, ainda me resta dignidade bastante para também não permitir que ele me mude.
E não vou mudar!
Vou continuar sendo quem eu sou, comendo o que quero, bebendo o que gosto, fumando e envenenando os MEUS pulmões, com a minha música, com os meus livros, com as minhas atitudes, com meu jeito de falar, de trepar e de pensar.
O que mudou é que eu tenho tido cada vez menos vontade de sair de casa. As coisas das quais eu gosto não estão mesmo mais lá fora. Acabaram, sumiram, fecharam. Não tenho mais razões para ir procurá-las. As pessoas, em sua imensa maioria, me fazem sentir preguiça. Não estou mais querendo mover sequer uma palha em nome de uns amores mequetrefes, um sexo mais-ou-menos ou qualquer companhia que me faça sentir mais sozinho. Além do que, quase já não há mais lugar onde eu ande em que eu não me sinta inadequado, enrolando os pés nos tapetes das novas etiquetas. E isso, claro, não vai melhorar.
Eu não quero mais brincar.
Mas, para me servir não de consolo, mas quase como vingança, eu tenho meus trunfos!
Mesmo que eu passe isolado o resto dos meus dias, sem nada mais realizar e sem apontar o nariz para além do batente da porta – ainda assim – eu terei acumulado mais histórias para contar do que a grande maioria dos meus conhecidos: e falo de viagens e de madrugadas longínquas, de ter visto a história acontecendo diante do meu nariz, falo de fatos e coisas e de sensações que experimentei – e que só experimentei porque sempre fui assim, exatamente assim, feio, sujo e malvado, desbocado e desregrado e porque nunca tive medo de pegar resfriado. Na matéria “amor & sexo”, eu cheguei mais longe do que poderei um dia traduzir em palavras, o que, se por um lado justifica a minha indolência em relação aos simulacros de romance de agora, por outro me reforça uma certeza – e outra vingança: eu amei no tempo em que amar era algo que valia a pena!
Enganar-se-ão também os que alardearem as enormes vantagens dos novos tempos, os milhões de novos e modernos recursos que hoje existem, achando que um cidadão praticamente pré-histórico não há de saber sequer como tirar proveito disso. Pois tudo o que há de bom, tudo que presta, todas as ferramentas úteis à disposição neste século estranho, eu aprendi – sim! – a manejar!
E é também por isso que eu posso passar o resto da minha vida no meu universo particular, na minha caverna com banda larga. Entendi faz tempo o que é Home Office e quase já não preciso sair de casa para ganhar o meu brioche de cada dia.
Não vou mais ao cinema. Espero que os filmes sejam lançados em DVD. Os compro pela internet. Eles entregam aqui na minha porta, embaladinhos. Se eu pedir, até pipoca de microondas mandam junto. Os livros também chegam assim, não preciso ir lá fora comprar. Meus pratos favoritos, meus vinhos: delivery! Pay-per-view, pra que te quero: futebol, com direito às entrevistas coletivas dos técnicos e mil tira-teimas.
Não vou mais à shows ver meus artistas amados, essa gente quase sobre humana que guiou o rumo das minhas sensibilidades pela vida toda. Já estão mesmo quase todos eles sessentões, em fim de carreira. Assim como eu. Espero que alguma alma caridosa envie vídeos para o Youtube, pra que eu possa matar as saudades. Tanto faz que sejam vídeos novos ou antigos. Na verdade, até prefiro os antigos, me dão a ilusão de que o tempo não passou, que eles estão jovens de novo, de que eu também estou.
Falo com o mundo inteiro e o mundo inteiro pode falar comigo: tem Skype, tem MSN, tem blog pra eu continuar contando minhas lorotas. Tem web cam. Um dia desses, um nerd esverdeado, engomadinho e não-fumante vai viabilizar a utilização de um programa capaz de fazer com que a imagem tridimensional seja captada e transmitida com perfeição, vai ser praticamente como estar na presença de quem se quer ver. E eu vou ter isso também.
Vejo tudo daqui, centenas de canais. Só evito os noticiários e os programas de entrevistas, de atualidades. Não quero saber! Política? Rá! Quero que todos eles se matem uns aos outros! Para que eu vou me preocupar com o rumo de um mundo que já não me interessa e a qual eu já nem pertenço?
Ergo aqui as minhas trincheiras, minhas barricadas, meu auto-exílio. Será um ato de heroísmo para quem assim souber ver. Um ato de resistência heróica. Resistência, não rendição: se o mundo me transformou numa peça de museu, assumirei então essa condição, mas com brios.
Os estudantes universitários que desejarem minhas memórias como tema de suas teses e os que quiserem me pesquisar sob os pontos de vista sociológico, histórico ou médico, eu receberei com cordialidade – mesmo porque, sei que eles estarão entre os poucos com quem poderei praticar, sem culpa, uma das coisas que na vida mais me deu prazer: falar. E falarei, ainda que esteja ciente de estar diante de ouvintes, digamos, “profissionais”.
O meu baú de recordações de ex-músico, ex-boêmio, ex-mochileiro, ex-militante, que assumiu por livre escolha a condição de ex-cidadão, estará disponível para visitação, desde que com autorização prévia e hora marcada.
Às pessoas que ainda me amam, e às que ainda talvez me amem, eu abrirei a porta sempre que quiserem me ver – e as receberei, sim, com alegria, a casa limpa, com café e biscoitinhos. Perdi a vontade do mundo, não a educação. Mas isso, desde que não me queiram depois puxar pela mão e me levar para fora. Desde que estejam cientes de essa foi minha opção.
O mundo estará – segundo o senso comum – mais seguro sem gente como eu, circulando pelas ruas.
Jamais o apartamento lhe parecera tão grande. O vão entre o chão de tacos de madeira e o teto branco parece ter aumentado. É ausência o que preenche o espaço.
No coração, um vazio. Como o vazio que se sente no estômago quando se tem fome. Bem parecido. Mas é no peito. Lembra já ter tido tal sensação muitas vezes, mas esquecera-se dela nos últimos tempos.
Cansa de chorar e levanta-se do sofá em que permanecera sentada e prostrada por horas, desde que ele de lá saíra, carregando suas poucas coisas e sua já tão conhecida expressão de despedida. Levanta-se e caminha até a janela, com os tacos rangendo sob os pés. Debruça-se no parapeito. É começo de tarde e é domingo, talvez tenha chovido, mas agora o sol bate forte no asfalto lá em baixo. Do sexto andar observa-se um movimento incomum na Rua da Consolação, para aquele dia, àquela hora. Gente com bandeiras e faixas na cabeça, em grupos, em algazarra. Olha para a alegria das pessoas e entristece-se mais. Queria poder sentir o mesmo.
Afasta-se da janela, encara as paredes, os bibelôs na estante, os Lps desarrumados, as muitas fotos pregadas com tachinhas coloridas no mural de cortiça: lá está a cara dele, dezenas de vezes. Mas não só nas fotos. Ele está nos tapetes, nos livros, na cama e no sofá. Está na mesa da cozinha e no box do banheiro. Está nos espelhos. Está em tudo, impregnado, estampado, refletido, manchado, escorrido por todo lugar.
Na pia da cozinha, a torneira que goteja é responsável pelo único ruído no ambiente. Olha o relógio de parede, o relógio com calendário que anuncia a data de dez de dezembro de mil novecentos e oitenta e nove. Mais de dois anos haviam se passado desde a primeira vez que aquele homem ali entrara. Mas agora, com o tempo embrulhado por aquela embalagem de dor, de derrota e de vazio, pela primeira vez, os dois anos lhe parecem vinte. Talvez mais. Pensa em si mesma dois anos antes e sente-se envelhecida.
Vai até o fogão, gira o botão do gás. Suspira. Vê a cara dele e ouve a voz dele. Sobretudo ouve a voz. Parece reverberar dentro do seu crânio. O som da voz, as palavras. Sobretudo as palavras. Coloca água para esquentar e volta para o parapeito da janela. Mais e mais pessoas caminham para o comício. Jovens, velhos e crianças. Muitas crianças, pelas mãos dos pais, outras de colo. Fixa a atenção nelas, o que entenderiam de política? Nada. Mas estão lá, festejando a vida. As crianças, com seus pais. Tantas crianças! Sente um aperto mais doído no peito, chora de novo. Chora de soluçar.
Caminha até o banheiro, encara seu próprio rosto no espelho. Vê o frasco fechado de antidepressivos, o último de tantos, o que resolvera manter intacto, jurando não mais precisar deles, apenas para se lembrar. Lembrar era um esforço. Espanar a poeira de tanta mentira, tanta cafajestagem, tanta filhadaputice para se lembrar do início. Apanha o frasco. Lembra-se do homem que vinha de outra cidade, o homem da história triste, o homem que se abrigara em seus braços, em seu mundo, em sua vida. O homem que se declarara apaixonado muito antes que ela mesma ousasse. O homem dos momentos perfeitos. O homem quase irreal. Recoloca o frasco no lugar. Intacto.
O burburinho da rua aumenta a ponto de se fazer ouvir no sexto andar. A água ferve no fogão. Um café, um cigarro. Palavras de ordem, slogans, hinos, gente acreditando sinceramente em mudanças. Uma mulher acreditando sinceramente no amor de um homem. Por que não haveria de acreditar? A louça empilhada do café da manhã que ela lhe servira poucas horas antes, como sempre o fizera. A torneira aberta, um prato, uma xícara, outro prato. Uma faca, quanta dor. Quantos problemas naquele homem que um dia fora perfeito. Quantas oscilações, quantas dúvidas, quanta inconstância. Outra faca, segura forte pelo cabo. Tanta compreensão ela lhe destinara, tanta paciência. Amava, e se amava não sabia agir de outra maneira. Queria sentir raiva. Sente, mas queria sentir mais. Louças e talheres lavados com raiva. Quanto desaforo. Quantos atrasos, arrogâncias, grosserias. Quanta falta de tempo, omissões, descasos, desatenções, ingratidões, prioridades outras. Um corte no dedo na lâmina de uma faca. Uma gota de sangue dissolvida em água e detergente. Quanta chatice, drama, egoísmo, indiferença. Quanta mesquinharia e intolerância. Quantas verdades sonegadas e quantas mentiras mal contadas, agora pipocando por toda parte.
Louças e talheres guardados. O dedo ferido, o coração sangrando. A torneira, mesmo fechada, continua gotejando. As justificativas, a pior parte. Para tudo, explicações. Para todo ato mau caráter, por mais explícito. Para toda canalhice, por mais evidente. A culpa jamais é dele. É de outro, é de alguém, de alguma coisa. Dele, jamais! São os outros, são sempre os outros! Os outros são mentirosos, fúteis, fracos, superficiais, vulgares e censuráveis. Ele não. Ele gruda a máscara à própria cara e se convence de que é o personagem. Ela não suporta mais. Acabou-se. O pote de açúcar escorrega de suas mãos molhadas, espatifa-se no piso cerâmico.
Num impulso, decide sair. Veste-se rapidamente, não pega bolsa, documentos, dinheiro, nada. Apenas coloca óculos escuros. Fecha a porta do apartamento, o elevador a espera, parado em seu andar. Como pode alguém agir de tal modo e dizer tais coisas e nem de leve notar a própria baixeza? Apenas seis andares, mas parece tempo demais. Falta-lhe o ar.
Pisa na rua e mistura-se às pessoas que ainda passam em alegre cortejo. Sobe alguns quarteirões da Rua da Consolação, até a altura da Rua Sergipe. Atravessa a primeira pista, até o canteiro central. De lá olha para o muro do cemitério. Um ônibus vem subindo, veloz, pela pista da esquerda. Vê uma linda menina, de cabelos cacheados, trajando a camiseta vermelha do partido, no colo da mãe, na outra calçada. O muro do cemitério é branco e a menina está sorrindo e abraça a mãe. O ônibus, veloz, tem a inscrição “Paraíso” no pára-brisa. Um aperto no peito, um nó na garganta. Não vê mais a menina. O ônibus passa. Ela atravessa.
Acompanhando o fluxo de pessoas, caminha pela Rua Sergipe, até a Rua Ceará, Rua Alagoas e, um pouco mais adiante, próximo à Praça Vilaboim, na padaria de esquina, avista um grupo de conhecidos, alegremente conversando. Finge não vê-los. De um bar em frente à FAAP, uma amiga lhe acena, chamando-lhe pelo nome. Simula um sorriso, acena-lhe de volta, finge pressa, segue. Um péssimo dia para encontrar conhecidos e parece que muitos estão ali. Parece que a cidade inteira está ali.
Música, slogans, palavras de ordem, clima de festa, som de muitas vozes. Uma única voz, contudo, parece falar dentro de seu crânio, repetindo, repetindo e repetindo aquelas mesmas frases, com a mesma frieza. Mais alguns minutos e depara-se com a impressionante multidão concentrada na Praça Charles Miller.
No palanque montado na frente do estádio, um político de rosto e voz familiares, mas de cujo nome ela não se lembra, faz um discurso inflamado. Ela se mistura à multidão, mas não muito. Prefere ficar a uma distância razoável de onde o público é mais compacto. Ouve o político bradar por diversas vezes a palavra “mudança” e em outras tantas a expressão “nós já não agüentamos mais”. Senta-se numa mureta, em uma das laterais da praça. Os militantes reagem efusivamente ao discurso do político. Ela gostaria de poder estar interessada por aquele assunto, deveria estar. Mas como dirigir a atenção à política, à sociedade, ao mundo, enfim, sentindo o próprio mundo particular esfacelado?
Uma famosa cantora sobe ao palco-palanque sob aplausos. Canta, dança, faz dançar a multidão. Como é possível uma pessoa mudar tanto? Era a pergunta que ela se fazia há até bem pouco tempo. A artista termina a primeira canção e emenda um breve discurso político, gritando que é chegada a hora de mudar. Não houve mudança alguma, esse é o fato. Houve uma mera interrupção, um descanso, um encantamento. Fora isso que ela lhe provocara. Nada mais. A multidão delira, acredita piamente na mudança. O que ele lhe mostrava agora, nada mais era do que sua face verdadeira. As peças se encaixavam. Tudo ficava nítido. O público acompanha com palmas, braços erguidos, o refrão da canção otimista que fala em “novo tempo”. Ela se encolhe, cruza os braços sobre o ventre. A canalhice passara a fazer todo sentido. Há coesão entre o mau-caratismo desnudado de agora e as histórias que ele lhe contara quando chegou. A multidão delira de alegria e fé. Ela acreditou, por paixão.
Paixão fulminante, entrega, envolvimento. A vida repentinamente lotada de razões. Cumplicidade e planos. Fora mesmo assim? Ou ela assistira uma cena irreal tendo sua própria vida como palco? No palco-palanque um político de outro partido, que recém aderira à campanha, é recebido com certa reserva pelo mar de militantes. Mas fala com tamanha convicção que acaba ganhando a massa e sendo ovacionado. Tanto tempo, idas e vindas, separações e reconciliações. E agora? Lá estava aquele homem habitando seu mundo novamente. Sem que ela nada tivesse feito para isso, voltou porque quis. Deveria, pois, saber o que queria. Foi o que ela pensou. O político jura nada querer para si e nem para seu partido. Afirma estar plenamente engajado à uma causa. Ela, escaldada, esperou um bom tempo para lhe cobrar qualquer postura. Deixou que o tempo acomodasse as coisas entre eles. Mas agora era imperativo, ela precisava saber se tinha um homem em sua vida ou apenas um hóspede em casa nos finais de semana. O político encerra seu pronunciamento, desce do palanque. Ouvem-se aplausos. Mas também alguns murmúrios de desconfiança. Não lhe disse nada, não contou. Apenas passou a lhe mostrar que esperava que a relação deixasse de ter mão única. Bastou. Bastou para que ele esfriasse, se amuasse, se perdesse em contradições e desculpas. Até aquela manhã, até aquelas frases, ditas com desdém, parecendo um pai que nega um presente de aniversário a um filho.
- Eu não vou fazer o que você quer.
Ele deu uma pausa, como que esperando que ela mesma concluísse, completasse o raciocínio e o poupasse do custo de ter que prosseguir. Ante o silêncio dela, repetiu e terminou:
- Eu não vou fazer o que você quer, eu não vou te assumir.
Sim, você não vai “me assumir”, porque simplesmente não é para isso que eu sirvo a você. Você não vai “me assumir”, apesar de você ter voltado para mim pela terceira ou quarta vez. E sem que eu nada tivesse feito para isso. Você veio por que? Para que? Para finalmente “me assumir”? Não! Veio, como sempre, se refestelar na minha vida, se espalhar, se divertir. Veio passar o tempo. Veio usufruir dos cuidados que te dispenso, do prazer que te proporciono. E mais nada. Eu sabia, eu bem sabia! Que esperança idiota essa minha, coisa de mulher! Eu bem sabia que bastaria um mísero sinal de que eu aguardava por alguma atitude, uma cobrança, por menor que fosse. E pronto: lá estaria de novo aquela sua cara de tédio, aquela sua preguiça irritante, aquelas suas mil maneiras dissimuladas e tortuosas para dizer “Eu também tenho que dar alguma coisa? Então não quero ...” Você não vai “me assumir” e nem assumir o que temos e o que somos, pela simples razão de que “assumir” é um verbo que sequer consta em seu dicionário! Você jamais assume coisa alguma. É conhecer a sua vida e notar que o ônus nunca é seu. Você se faz de vítima para esconder que o que lhe falta é ser homem! Então vá! Nem perca tempo com suas justificativas sinuosas porque eu já as conheço. Todas elas. Eu já sei que, de novo, você está indo! Vá e, dessa vez, fique! Quem sabe até você encontre alguém a quem deseje assumir? Alguém mais “adequado”, mas adaptável, mais controlável. Alguém mais dentro dos “padrões”. Alguém com quem você deseje circular por entre seus maravilhosos amigos, quem sabe? E principalmente alguém que não lhe conheça tanto! Que não saiba tanto. Que não fale tanto. Alguém que não conheça a origem espúria dos teus bens e nem os podres da tua família. Alguém que nada saiba sobre quem você realmente é, para que depois você não tenha que lhe convencer do seu enorme “arrependimento” por todas as picaretagens que cometeu na vida por pura inocência. Alguém que lhe compre pela sua imagem, aparência e primeiras impressões. E nada mais. Vá! Saia logo daqui, mesmo que uma parte sua tenha que ficar. Saia!
Pensou tudo isso e disse apenas:
- Você já vai mesmo?
Ele disse ter pressa, alegando compromissos que ela sabia que não existiam. Sua única pressa era a de sair dali e se afastar o quanto antes dela e de qualquer palavra dela que lhe parecesse uma cobrança. E ele tinha um jeito todo próprio de fazer com que ela se sentisse culpada. Mas não dessa vez. Normalmente ela faria de tudo para dissuadi-lo, acalma-lo, seduzi-lo para que ficasse. Tomaria, sim, a culpa para si. Mas não dessa vez. Correria atrás dele até a rua, pediria, choraria, imploraria se preciso fosse. Mas não dessa vez. Esperaria ansiosa até a hora em que pudesse lhe telefonar e o faria, se desculpando, fosse pelo que fosse, ainda que culpas não sentisse. Aceitaria ceder e se adaptar a qualquer condição ditada por ele. Contentar-se-ia com qualquer migalha do seu amor. Mas não dessa vez. Dessa vez, em que ela tinha razões fortes o bastante para prensá-lo conta a parede, não o faria. Olhou mais uma vez para aquela sua expressão murcha e morna, de homem fraco, de homem sem atitude, de egoísta e mimado. Nem se preocupou em procurar algum resquício da criatura em que enxergara tanta virtude um dia. Não lhe diria nada, não lhe diria mais nada. Ele não merecia sequer saber, não merecia saber de mais nada. Apenas deixou que saísse.
A noite já se abatera sobre a praça em festa há muito e a multidão parece cada vez maior e mais excitada. Uma eletricidade de esperança e de alegria parece envolver todas aquelas pessoas. E ela se sente tão absurdamente só, mais só do que já se sentira em qualquer outro momento da vida. O respeitável senador discursa, enérgico. A multidão delira, aplaude, assobia. Crianças ainda brincam no gramado rente à mureta lateral da praça, onde ela se instalara há horas. Brincam, fazem festa, repetem as palavras de ordem ainda que mal lhes conheçam o significado. Um menino menor dorme tranqüilo nos braços de um jovem pai, que o nina cantando um jingle de campanha e com um sorriso no rosto. Ela sente uma angústia maior, um aperto, o ar lhe falta, tem que sair dali. Levanta-se, caminha com dificuldade por entre o mar de gente, tem que sair. Empurra, esbarra, pisa em alguns pés, pede desculpas. Atravessa finalmente a praça e ganha a avenida.
Ela caminha deixando para trás a praça e sequer se vira quando a multidão explode em aplausos e saudações ao ser anunciado o nome de um artista. Caminha pelo canteiro central da avenida arborizada, muito lentamente. Nem percebe que subitamente o burburinho da praça cessa, e cessa por completo, no exato instante em que se pode ouvir os acordes um pouco titubeantes de um violão. Ela não está ali. Está afundada nos pensamentos, no próprio mundo. Não está ali. Nada tem a ver com aquilo. Caminha e caminha. Não ouve nada. Não ouve a voz do cantor.
Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Fui tudo o que de melhor poderia ser para você. Você bem sabe. Você jamais poderá negar. Nem esquecer. Do prazer que te dei. Da companheira que fui. Do quanto enfeitei tua vida quando nela só havia cinzas. Porque te amei, no primeiro momento te amei. E por te amar, só por te amar, abarquei com minhas mãos esse teu coração. E tratei dele, cuidei e ninei. Porque te amei e só por isso. Fiz do ato de te amar uma obra diária, esmerada, caprichada. O melhor de mim servido a você numa bandeja. O melhor, nunca menos que isso.
Já estanquei meu sangue quando fervia
Engoli a seco. Esperei. Calei. Compreendi. Tanta e tanta coisa. Achei que o teu amor justificava tudo. Quantas vezes quis gritar, quebrar a casa. Voar no teu pescoço e te fincar as unhas. Mas calei, abafei, suportei. Uma hora a mais, paciência. Um dia a mais, paciência. Uma mesquinharia, uma ofensa, uma mentira a mais. Paciência, paciência, paciência!
Olha a voz que me resta
Está aqui o resultado desse amor! Da dedicada, paciente, ardente, companheira, plena mulher! Tua namoradinha perfeita! Agora está aqui, caminhando para lugar nenhum, com esse gosto de nada na boca.
Olha a veia que salta
Não me calo mais, não mais! Queria poder te fazer saber o que está represado aqui dentro, por tanto tempo. Queria poder te contar que agora que essa nuvem se dissipou, estou te vendo melhor. E estou vendo um fraco. A mentira de homem que você é, que sempre foi!
Olha a gota que falta pro desfecho da festa
Não está faltando mais quase nada, quase nada! Está batendo na tampa. Estou pra explodir. Queria apagar tudo, deixar de existir.
Por favor, deixe em paz meu coração
Agora chega! Não quero mais escutar as tuas lamúrias, nem fazer de conta que entendo teus mil probleminhas. Chega! Não me apareça mais. Não fale, não venha, não pergunte. Principalmente não pergunte! Nada! Você já deixou muito claro que não deseja saber.
Que ele é um pote até aqui de mágoa
Você conseguiu, seu grande estúpido. Tanto fez que conseguiu! Fez esse amor todo virar ao contrário, virar esse desgosto, essa coisa amarga!
E qualquer desatenção, faça não
Não te quero mais, não te quero! O que trago comigo não te pertence, nada aqui é seu. Vou andar sozinha, seja como for. Vou andar longe de você!
Pode ser a gota d’água
Olha só, como eu ando sem você! Olha como eu ando. E pulo. E danço! Tudo longe de você. Você não me toca mais. Em nada você me toca. Nem no meu corpo, nem no meu coração! Não toca, você não toca! O vento me toca, você não! Olha só, olha!
Pode ser a gota d’água
Eu posso andar sem você, eu posso! Olha o vento batendo no meu cabelo, olha! Não tem nada seu aqui, nada! Eu posso andar, posso dançar, posso fugir! Olha o vento como bate! Eu posso até voar!
Pode ser a gota d’água
Sim! Agora eu posso voar!
No dia seguinte, todos os jornais da cidade abriram grandes espaços para a cobertura do mega-comício, que levara milhares e milhares de pessoas às ruas naquele domingo. Trechos dos discursos dos políticos foram reproduzidos, entrevistas foram publicadas. Inúmeras imagens das apresentações de artistas foram estampadas. Colunistas das mais diversas tendências comentaram o evento e analisaram em profundidade os rumos daquela campanha política.
Contudo, apenas dois ou três noticiaram, em poucas linhas, a morte trágica de uma mulher não identificada, cujo corpo fora encontrado a cerca de um quilômetro e meio do local do comício, ao cair do Viaduto General Olímpio da Silveira, sobre o asfalto da Avenida Pacaembu. Segundo informaram os jornais, não havia até aquele momento, nenhuma informação que tornasse possível afirmar que a morte fora resultado de acidente, crime ou suicídio. Nenhuma testemunha se manifestara.
E apenas um jornal mencionou que, segundo exame preliminar realizado pela perícia, havia indícios de que a morta possivelmente se encontrava no início de uma gravidez.
Nunca mais o fato foi mencionado.
Simone
Gota D'água
(Chico Buarque)
Nota: No dia dez de dezembro de 1989, foi realizado na Praça Charles Miller, em frente ao Estádio do Pacaembu, o último comício da campanha do então candidato Luís Inácio da Silva à Presidência da República. Eram as primeiras eleições diretas para presidente, depois de quase três décadas e os comícios provocavam imensa mobilização popular. O número de pessoas presentes àquele evento, foi estimado em mais de quatrocentas mil.
O “showmício” durou praticamente o dia todo e contou com a presença de políticos de vários partidos que, no segundo turno das eleições, aderiram à campanha do candidato do Partido dos Trabalhadores. Estavam lá, entre outros, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, Leonel Brizola, Roberto Freire e Miguel Arraes.
Os discursos dos políticos foram intercalados por apresentações de muitos artistas, desde anônimos até estrelas conhecidas. O último a se apresentar foi Chico Buarque de Hollanda, numa aparição surpreendente (sua presença não fora confirmada até momentos antes dele subir ao palco). Sozinho, acompanhando-se apenas de seu violão, Chico cantou uma única canção – “Gota D’Água” – e causou uma verdadeira catarse, ao, de forma inacreditável (e inesquecível), silenciar completamente a multidão.
Uma semana depois, Luís Inácio da Silva receberia 31,1 milhões de votos, sendo derrotado por Fernando Collor de Mello, que com pouco mais de 35 milhões de votos, foi eleito Presidente do Brasil.
“Marley & Eu” (“Marley & Me”, Estados Unidos, 2008), versão cinematográfica do livro de sucesso do jornalista americano John Grogan é a história de um cachorro que tem uns humanos como coadjuvantes.
Os humanos são um casal bacaninha, John (Owen Wilson) e Jenny (Jennifer Aniston, gatíssima), que se casam, mudam de cidade, compram uma casa, têm um filho, dois filhos, melhoram de vida, compram outra casa, têm mais um filho, melhoram mais um pouco, mudam-se de novo. Uma história comum, de gente comum, com seus conflitos tipicamente humanos, sem nenhum “glamour” especial.
O cachorro é o Marley – e ele é um labrador dotado de um inacreditável poder de destruição, amalucado, desastrado, indisciplinado, folgado, comilão, um “moleque” de quatro patas, no pior sentido da palavra.
Mas poderia ser tudo diferente.
Os humanos poderiam ser pobres, morar em um cortiço ou serem sem-teto. O Marley poderia ser um vira-latas pulguento. O que não mudaria seria a noção de amor incondicional e de entrega irrestrita que um cachorro é capaz de demonstrar por aqueles que se dizem seus “donos” – mas que aos olhos dele, são bem mais do que isso – e a completa alegria de viver na companhia deles.
Nisso, os cães são muito mais avançados que nós.
Os humanos – no filme, como na vida – se conhecem, se apaixonam, percebem uns nosoutros primeiro as virtudes e depois as imperfeições, se desencantam, precisam reinventar os afetos, driblar contingências, mudar os planos, recomeçar muitas vezes. Isso se quiserem mesmo sobreviver uns aos outros e fazer sobreviver também um relacionamento, tarefa da qual muitas vezes desistimos.
Os cães não fazem planos: parecem conhecer a transitoriedade da vida e a levam do início ao fim, ligados no máximo – e amando no máximo. Um cão jamais cogita a hipótese de romper o relacionamento com seus humanos.
“Marley & Eu” é um filme sobre a inutilidade das escolhas – diante da constante imponderabilidade dos fatos. Porque, como sabiamente é dito ao jornalista John por seu taciturno chefe, “a vida às vezes faz suas próprias escolhas”.
Assim é que John vai passar anos silenciosamente invejando Sebastian, seu colega de profissão, que, sem “amarras” pessoais, alça vôos profissionais mais altos, cultiva um estilo de vida individualista e troca de namorada como quem troca de camisa – enquanto ele, por conta de casamento, casa, filhos, cachorro, “condena-se” à uma vida menos excitante, um trabalho menos emocionante.
Assim é também que Jenny abdica de uma carreira promissora para dedicar-se à criação dos filhos, recusando-se à contratar uma babá.
A vida faz, para ambos, escolhas diferentes das previstas – mas quem poderá julgar que tenham sido escolhas piores?
(No último encontro com Sebastian, a ficha finalmente parece cair para John – e ao notar que o amigo continua sendo o mesmo galinhão desapegado de sempre, apesar dos cabelos já grisalhos, ele parece compreender o valor de se ter uma foto de família na carteira: o olhar resignado de John para Sebastian quando se despedem tem uma ponta de quase desprezo ou este colunista viu o que quis ver?)
Fato é que esses dramas íntimos sobre o que somos e o que poderíamos ter sido, são conflitos que afligem apenas as mentes humanas – e o filme, como já foi dito, tem um cachorro como protagonista. E aos olhos – e para o coração – de um cão, seu “dono” será sempre nada menos do que o máximo.
No comovente texto final, a síntese de tudo isso:
“Para um cão, você não precisa de cαrrões, de cαsαs grandes ou de roupas de mαrcα. Um graveto está ótimo pαrα ele. Um cαchorro não se importa se você é rico ou pobre, inteligente ou idiota, esperto ou burro. Dê seu corαção α ele, e ele lhe dará o dele. De quantas pessoas você pode fαlαr isso? Quantas pessoas fαzem você se sentir rαro, puro e especial? Quantas pessoas fαzem você se sentir extraordinário?”
“Marley & Eu” é um filme que, quando acaba, causa um estranho calor dentro do peito, algo como nos “informar” que viver não precisa ser tão complicado, que a noção que temos de edificar algo de grandioso durante nossas vidas pode ser uma coisa bem relativa, que se debater diante das intransigências do acaso pode ser uma grande bobagem e que a vida é, enfim, um roteiro que se escreve enquanto o filme já está sendo exibido – e que remete à sensações como: “... é que de vez em quando ele fala sobre ter um projeto em comum, de ter uma casa com quintal gramado, uma piscina e um cachorro! Eu acho bonitinho às vezes. Só às vezes, mas acho... “
Essa foi uma piada interna, para ser compreendida apenas por leitores habituais deste blog.
Ao se passar, enfim, a personagem inteira pelo coador do tempo, de maneira a reter toda a sorte de justificativas, explicações, desculpas, textos, pretextos e contextos, rabugices e ranhetices, blablablás e nhenhenhéns, melindres, patricices, omissões, egoísmos, desaforos, deselegâncias, indiferenças, grosserias, fraquezas, mentirinhas, sacanagenzinhas, filhadaputicezinhas, truques, ardis, molecagens, divãs, confessionários, palavras, palavras, palavras e as culpas sempre atribuídas à outrem, o que sobra é bem pouco, quase nada.
É um café amargo, frio e, sobretudo, fraco. É o que menos faz diferença (e algumas lágrimas bastam pra consolar).
O imenso deserto em volta já havia, sempre houve. Erro foi achar que se poderia preenchê-lo com fumaça.
Saber o que dói também não faz muita diferença. Existir dói – e é inevitável.
Devia ser um bom lugar para se viver, aquele Brasil de 50 anos atrás.
Neste ano de 2008, de tanto que se celebrou os 50 anos da bossa nova, foi inevitável voltar as percepções para aquela época, quando tudo parecia ser mais leve, quando o mundo parecia ser menor e quando ter uma boa idéia poderia significar mudar para sempre a história da cultura de um país.
A segunda metade da década de 50, para quem aprendeu a sentir a vida através de versos, melodias, cenas, textos – e todas as demais guloseimas do espírito – é um tempo que causa uma estranha saudade, até para quem nem estava lá.
E essa nostalgia é mais uma vez cutucada – e com muita graça – no espetáculo “Tom & Vinícius – o Musical”, em cartaz em São Paulo.
São retratados os primeiros anos da parceria, que se inicia quando o respeitável poeta e diplomata Vinícius de Moraes tem a idéia de transformar em musical a história de Orfeu e Eurídice transportada para um morro carioca – naquela época os morros cariocas inspiravam os poetas. Apresentado então ao jovem e talentoso músico Tom Jobim, ambos realizam seu primeiro projeto em conjunto.
A história em si já é malhada, totalmente conhecida em todos os seus detalhes. Mas vê-la dramatizada no palco, com atores encarnando personagens tão reais e ainda tão vivos em nossa memória – com todos os seus trejeitos e jargões, reproduzindo com fidelidade até mesmo a maneira como se vestiam – é quase como poder ser transportado no tempo e no espaço e ter a chance de testemunhar tais fatos.
Alguns episódios marcantes da trajetória da dupla são retratados em engenhosos e divertidos esquetes.
Dois deles são sensacionais.
No primeiro, Tom e Vinícius tentam convencer Elizeth Cardoso a incluir a canção “Chega de Saudade” em seu próximo disco, “Canção do Amor Demais” – e vencer a resistência da cantora à música que ela considera, a princípio, “erudita” demais para seu repertório. Uma vez tendo conseguido seu intento, os parceiros se esforçam ainda muito mais para conseguir depois que a “Divina” aceite ser acompanhada na gravação da faixa por um desconhecido violonista baiano chamado João Gilberto... Para quem tem uma vaga noção do que a canção, o disco e o violonista passaram a representar para a história da música brasileira após a gravação que – graças a Deus! – aconteceu, a situação é hilária.
No outro, é retratado o encontro de Tom e Frank Sinatra, na gravação de “The Girl From Ipanema” para um programa da TV americana. Por ter esse “clip” tornado-se um clássico ao longo das últimas décadas, de maneira a se poder saber de cor cada movimento dos dois artistas, a cena torna-se uma homenagem à ambos, pela exatidão com que é reproduzida – na verdade, nem seria necessário caricaturar o que originalmente já é exagerado: Sinatra esparramado numa cadeira, fumando; Tom, parecendo pouco à vontade de gravata borboleta e tocando violão ... Ótimo!
Marcelo Serrado está ótimo encarnando Tom, mas Thelmo Fernandes rouba a cena na pele de Vinícius. Guilhemina Guinle – a quem o adjetivo “charmosa” precisaria ser elevado à enésima potência para lhe fazer jus – vive duas das mulheres de Vinicius. Um elenco de jovens atores-cantores e uma banda de cinco músicos que permanece parcialmente oculta durante todo o espetáculo lhes da sustentação.
A produção é caprichada, a direção é precisa: são duas horas de autêntica viagem à aquele tempo do qual se sente saudade sem ter estado lá e na ilustre companhia de dois de seus maiores mitos.
Bárbaro!
Tom & Vinícius – o Musical, de Daniel Pereira de Carvalho e Eucanaã Ferraz. Direção de Daniel Herz. Direção musical de Josimar Carneiro. No Teatro Copa Airlines, Shopping Eldorado, São Paulo.
Você olha em volta e tudo parece estranho. Bem esquisito.
Você não consegue notar ao certo quando e porque tudo ficou daquele jeito – mas sente estranheza. As pessoas são estranhas, até mesmo as que você julgava conhecer bem e por quem sempre nutriu carinho sincero.
De repente parece que todos adotaram um modelo de comportamento esquisito, parecem estar permanentemente rindo, gargalhando mesmo. Você não consegue entender o motivo, mesmo porque você não acha graça! Mas, ao prestar atenção, consegue notar que o motivo de tanto riso não é o óbvio – não é por sentirem muita alegria, não é por um improvável estado coletivo de felicidade, não é resultado de alguma realização.
Não. Não é.
Mas fato é que seus amigos todos estão rindo à toa e você não consegue decifrar a razão – e se desespera procurando uma até que conclui pasmo: não há razão!
Indiferentes, seus amigos continuam espalhando suas gargalhadas vazias. E bebendo. Sim, seus amigos bebem. Bebem muito, todo o tempo, de modo que parecem quase viver para isso. Falam nisso o tempo todo – sequer cogitam a possibilidade de qualquer acontecimento social entre eles que não gire em torno disso: bebida! Você começa a pensar então que o motivo do excesso de riso é o excesso de bebida, mas logo fica em dúvida, porque passa a considerar que pode ser ... o contrário! Sim, porque parece que eles não bebem porque se encontram – como seria o normal? –, mas que se encontram para beber: e só para isso!
Você então se pergunta se é possível realmente gostar tanto de beber. Imagina que um terrível estado de embriaguez logo os fará parar – afinal, a embriaguez é o efeito indesejável da bebida! Mas, com um pouco mais de atenção, você nota que não é isso que acontece: sim, seus amigos bebem justamente para ficar bêbados!
Eles continuam rindo e cada vez mais bêbados, quanto mais bebem, mais riem – e quanto mais riem, mais bebem. Você acha estranho, eles não bebem porque se divertem: eles – só? – se divertem porque bebem!
Você tenta então conversar com eles: afinal, são seus amigos, sempre foram – e você gosta sinceramente deles! Mas, atônito, você descobre que eles estão ... falando outra língua! Sim! Um idioma vagamente parecido com o seu, mas com um vocabulário limitadíssimo e umas expressões e umas interjeições esquisitas, mais parecidas com grunhidos!
Quase todas as frases começam efusivamente com um som assim: “mééééooo” ... Você não sabe se parece com um miado, um mugido ou um grito de dor – mas fato é que quase tudo que seus amigos tentam verbalizar começam com aquele som: “mééééooo”.
Mas como são seus amigos e você quer muito se comunicar com eles, você começa então a prestar atenção no idioma que adotaram, na esperança de conseguir compreende-lo. Identifica mais algumas expressões, algumas muito constantes – como uma, presente em praticamente em todas as poucas frases com mais de quatro ou cinco palavras, que você traduz como uma espécie de vírgula verbalizada: “tchipu!”. Sim, pronunciam isso a todo momento: “tchipu!”. Há variantes da mesma expressão – para demonstrar alguma hesitação no conteúdo da frase seguinte, acentuam a última sílaba, assim: “tchipúúúú!”. E também uma variante mais elaborada, que soa mais ou menos como “tchipuassim” ...
Há ainda uma espécie de ponto final oralizado – pelo menos é o que parece, pois a expressão está presente no final de quase todas as frases – e você acha particularmente curioso pela entonação interrogativa: “taligado?”.
Então seus amigos estão lá, rindo à toa, bebendo feito gambás e falando com você naquele idioma escalafobético:
- Mééééooo, tchipu ... tchipuassim, taligado?
Não é só isso.
Ainda há mais coisas que você, subitamente, começa a estranhar.
Todos usam bonés. Sim, bonés. Também uns penduricalhos horrendos nos pescoços. Têm desenhos ininteligíveis tatuados sobre a pele – mas todos eles, sem exceção, juram que cada rabisco daqueles é dotado de muitos significados. Você, educado, os ouve explicar – e finge compreender.
Você segue seus amigos até um lugar escuro, abafado, cheio de gente – cheio de gente igualzinha a eles! Você vê seus amigos no meio daquele povo, agitando freneticamente seus corpos ao som de uns ruídos eletrônicos ensurdecedores, ritmados, com uns rudimentos de melodia – é a música dos seus amigos! Eles pulam, mexem os braços, transpiram, gritam – sim, gritam: que outra maneira haveria para se comunicar no meio daquela balbúrdia?
Então você, sempre observando atento, nota que muitos dos seus amigos e grande parte daquelas pessoas que se chacoalham naquele lugar escuro, de repente ... começaram a namorar! Sim, parece que muitos se apaixonaram subitamente, porque você vê muitos casais se beijando apaixonadamente por toda parte, beijos lânguidos, demorados, melequentos. Você olha e acha até bonito, tanto amor, assim, repentino! Mas ... opa! Aquela moça ali, namorando aquele rapaz, não é a mesma que estava, há cinco minutos, beijando outro? E aquele garoto ali, todo engalfinhado com uma menina naquele canto, não é o mesmo que você achou que estivesse apaixonadíssimo por uma outra pessoa há alguns instantes?! Sim, você percebe, atônito, que os casais se formam e se desfazem instantaneamente: se olham, nem palavras trocam e vão logo enfiando as línguas nas bocas uns dos outros! Parece ser uma mera e mecânica troca de salivas, após a qual cada um vai para um lado, como se nada tivesse acontecido – e à procura da próxima boca!
Você olha espantado para todas aquelas pessoas, entre elas pessoas de quem você gosta sinceramente – ou pelo menos pensava gostar até há pouco –, rindo feito bobos, se embebedando, gritando, não falando nada que preste, vestidos de forma patética, ouvindo e aparentemente adorando uma música tenebrosa, divertindo-se sabe-se lá com o que e lambendo bocas estranhas e se pergunta: todos ficaram assim de repente? Ou será que de repente foi VOCÊ que passou a notar? Pior: será que você também era assim, assim se comportava, por alguma razão mudou e só por isso passou a reparar?
Você fica perplexo – mas não está mais perplexo com o que vê e sim com a sua própria perplexidade! Sim, porque lá entre eles tudo parece normal e harmonioso, a única coisa que parece destoar é justamente você e a sua súbita perplexidade: se você não pudesse “enxergar”, nada haveria de estranho no comportamento das pessoas!
“Ensaio sobre a Cegueira” (“Blindness”, Japão/Canadá/Brasil, 2008), filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles e baseado na obra do escritor português José Saramago, narra o episódio de uma inexplicável epidemia de cegueira que se abate sobre uma cidade fictícia, rapidamente infectando todos os seus habitantes. Todos, menos um: uma mulher (Julianne Moore) que misteriosamente preserva a visão – e é pelos olhos sãos dessa personagem que o expectador é convidado a testemunhar a rápida e impressionante degradação em que mergulham os doentes ao serem confinados pelas autoridades em um sanatório abandonado. Por seus corredores imundos, onde cegos tateiam pisando sobre seus próprios excrementos, instaura-se o caos e uma insana e animalesca disputa por tudo: comida, território, poder. Ao decidir, juntamente com o marido (um oftalmologista vivido por Mark Ruffalo), não comunicar aos outros que é capaz de ver, a mulher exime-se de qualquer possível postura heróica, limitando-se à preservar a própria vida e a defender um mínimo de dignidade apenas ao próprio marido e a um pequeno grupo que, com eles, formam uma espécie de “núcleo ético” na trama. Mesmo porque, no cenário violento e caótico em que se transforma o sanatório, ter olhos não significaria de forma alguma ser “rei” – mas sim, certamente, ser escravo.
- Se tu pudesses ver o que eu sou obrigada a ver, quererias estar cego – diz a mulher ao marido em certo ponto da história.
Envolvente, impactante, o filme de Meirelles opta pelo registro naturalista da história, o que salienta – por oposição – a parábola desejada por Saramago: sobre quem realmente somos quando avaliamos que nossos atos não podem ser vistos ou julgados.
“Ensaio sobre a Cegueira” é uma metáfora que pode ser transportada para muitas situações da vida cotidiana – e enxergada em diversas facetas do comportamento humano.
Está no fato de ser “fácil” ser imbecil entre imbecis, a menos que um par de eventuais, improváveis e imprevistos olhos lúcidos nos estejam observando.
Está no comportamento das pessoas numa sala de espetáculos, todas educadas e elegantes sentadas em seus lugares, mas que quando as luzes se apagam ante o início da apresentação – o que lhes garante o anonimato –, sentem-se “livres” para gritar, assoviar e a dirigir adjetivos ao artista (sim, inofensivo e quase pueril, mas não menos significativo).
Está no procedimento ordeiro e civilizado das pessoas que esperam pacientemente pela sua vez numa fila de banco ou caixa de supermercado, evidentemente incapazes de passar abruptamente à frente de quem chegou antes – mas que numa estrada congestionada, ao volante de um automóvel (logo, com a identidade preservada e a individualidade “confundida” com a do próprio veículo), sentem-se no pleno direito de ultrapassar pelo acostamento: as duas situações não deveriam ser exatamente iguais?
Como toda metáfora, a contida em “Ensaio sobre a Cegueira” tem algum grau de hermetismo – e percebê-la pode exigir alguma capacidade de enxergar (com o devido perdão pelo péssimo trocadilho). Assim é que o filme foi recebido com certa frieza e tem gerado inclusive alguns protestos. Li ou ouvi em algum lugar que uma certa associação de cegos nos Estados Unidos está exigindo que o filme seja tirado de cartaz – segundo eles, ao retratar os cegos como “monstros”, Meirelles estaria externando uma visão preconceituosa.
À esses tais cegos americanos, eu gostaria de dizer que eles são, sim, idiotas. Mas que o fato de serem idiotas não reside de forma alguma no fato de serem cegos. Talvez resida no fato de serem americanos – mas essa já é uma outra história.
Em fóruns de discussão sobre o filme que visitei, testemunhei algumas pérolas. Uns acham o filme “sem pé nem cabeça”. Gente há que achou um absurdo assistir à duas horas de projeção e não receber nenhuma “explicação” para a epidemia de cegueira – se foi causada por “vírus” ou por algum problema resultante da “poluição ambiental” (mais incrível é que alguns arriscam palpites a esse respeito!). Ainda há os que não compreendem porque “o governo” não se empenhou em achar uma “cura” ou mesmo porque, sendo um dos personagens centrais justamente um médico oftalmologista, não teria este tentado pesquisar a causa do mal para poder vencê-lo!
Penso vagamente em explicar-lhes a idéia metafórica contida na obra. Mas logo me vem a idéia de que, por trás do teclado há alguém de boné. Penduricalhos horrendos no pescoço e tatuagens indecifráveis. Então abdico de qualquer iniciativa heróica. Desisto. E vou cuidar da minha própria vida.
Mágoa onde não cabe mais mágoa? Mágoa? Onde? Não cabe mais mágoa! Mágoa onde não cabe? Mais mágoa! Mágoa, onde? Não cabe mais! Mágoa ... Mágoa, onde? Não cabe mais? Mágoa ... Mágoa, onde? Não cabe mais mágoa? Mágoa, onde? Não cabe? Mais mágoa! Mágoa, onde? Não? Cabe mais mágoa! Mágoa... Onde não cabe mais: mágoa! Mágoa? Onde não cabe mais? Mágoa! Mágoa onde não cabe mais mágoa!
Para um espectador menos atento ou um resenhista mais apressado, “Os Desafinados”, filme de Walter Lima Jr. recém estreado, pode parecer uma obra sobre música – não é.
Pode parecer também mais um quase-documentário sobre uma época – do bom astral do final dos anos 50, da bossa-nova e de Juscelino, até o início dos anos 70, da barra pesadíssima da ditadura militar. Também não é.
A música está lá, sim, como quase personagem da trama.
E é uma música feita não só por banquinho & violão, mas também piano, flauta, baixo acústico, letras de romantismo suave, toda a “atmosfera” de uma bossa mais “Menescal & Bôscoli” – ensolarada e juvenil – do que “Tom & Vinícius” – mais substanciosa, musical e poeticamente.
Está na bela cena da improvisada jam session reunindo os jovens músicos brasileiros e uma banda de músicos negros de jazz, num esfumaçado club nova-iorquino.
Está no desejo do baixista Geraldo (o simpaticíssimo Jair Oliveira) de trocar seu elegante mas enorme contra baixo acústico por um Fender Jazz Bass – modelo que tornou-se um clássico e era moderníssimo na época – e no brilho de seus olhos, mais parecendo uma criança numa loja de brinquedos, ao entrar numa loja de instrumentos nos Estados Unidos: havia grande dificuldade em se adquirir instrumentos importados no Brasil de então.
As transformações ocorridas, em todos os aspectos, no Brasil, ao longo da época retratada, também estão lá, como pano de fundo ou – para usar uma pertinente metáfora musical – como contra ponto da história.
Está na indumentária dos personagens-músicos, de engomadinhos – obrigatórios ternos, gravatas e brilhantina – no tempo da bossa ao visual riponga dos anos 70.
Está na mudança da poesia que “veste” as canções, desde a ingenuidade dos “barquinhos” e “amorezinhos” (“Tudo muito inho! – conforme classifica o aprendiz de cineasta Dico, vivido pelo hilariante Selton Melo) até as canções de protesto.
E está, sim, na drástica alteração do momento político, partindo do clima democrático e culminando com a ditadura militar, ao retratar o seqüestro do músico Quim (Rodrigo Santoro), sem qualquer razão aparente, na Argentina (inspirado em um acontecimento verídico) e na violenta interrupção de um show-protesto pela polícia, no Brasil (também inspirado em vários acontecimentos verídicos de triste memória).
Mas muito mais do que isso, “Os Desafinados”, na verdade, é uma delicada crônica sobre amizades, paixões, relações humanas – permeadas por sonhos e objetivos compartilhados. Sobre jovens nada taciturnos, nada bem-comportados, nada sombrios – muito pelo contrário! – mas também nada fúteis, nada vazios, nada exibicionistas. Sobre amizades que duram, sobre paixões que atravessam anos, sobre envolvimentos que se enraízam – e sobre pessoas que viveram em um tempo em que essas coisas aconteciam: uma lufada quente de ingenuidade apaixonada que dificilmente poderia ser ambientada em tempos atuais.
(Nós, das gerações posteriores e que chegamos à este estranho século 21, é que parecemos, em algum momento e por muitas razões, ter desafinado no trato com nossos afetos...)
Na ardente Glória (interpretada por uma bela e carismática Claudia Abreu) está a síntese desses tempos e dessas pessoas que parecem cada vez mais raras: uma mulher dessas de que se tem saudade, por sua combinação de beleza, talento, ousadia, atrevimento, paixão.
O roteiro não muito bem costurado e o final meio forçadinho estragam um pouco o produto final, mas não comprometem o que o filme tem de mais valor: emoção.
“Os Desafinados” é um filme para se assistir com os ouvidos, sim, mas muito mais com o coração.
”Se teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz” (Matheus – 6, 22)
Muita coisa há que eu odeio.
E eu, quando odeio, odeio com verdade proporcional à quando amo – e, com verdade, muita coisa há que eu odeio.
Eu odeio a juventude imbecil, sem idéias, nem ideais, sem romance, nem poesia: o gargalhante exército de cretinos, sem luta, sem causa, sem nada. Mas odeio ainda mais os não-jovens – e um pouco mais ainda os não-imbecis! –, tentando mimetizar-se entre eles, por medo do isolamento – ou, pior: em busca dele.
Odeio o substrato de refugo de lixo, servido à guisa de “cultura”, nos bandejões clandestinos dos camelôs de toda esquina – à preço de banana, para cérebros de banana.
Odeio o mau gosto travestido de “tendência”.
Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer a verdadeira companhia(frase que é perfeita, mas não é minha: é de Nietzsche, o que me lembra que eu também odeio quem faz uso de idéias alheias sem lhes conferir os devidos créditos).
Odeio sentir saudade.
Odeio quem não se dá, não se entrega e não se envolve, quem não veste camisas, quem não passa da beirada da piscina – quem joga, vive e ama na retranca, sempre esperando pelo movimento do outro.
Odeio covardia sob o rótulo de “insegurança”.
Odeio quem não defende seus afetos, quem não protege seus amores, quem não honra suas palavras e não assume seus atos, quem não socorre, quem não abriga.
Odeio os canalhas – e quem é amigo de canalhas.
Odeio violência, agressão, estupidez; falta de cordialidade e de polidez. Odeio a vaidade exacerbada. Odeio a falta de generosidade. Odeio a soberba. Odeio quem maltrata porteiros, garçons, manobristas e balconistas.
Odeio quem explora os mais fracos – sejam mais fracos fisicamente, culturalmente, financeiramente: os ditos “mais fortes” serão sempre perversos.
Odeio doutrinas.
Odeio o sectarismo arrogante dos que julgam-se pertencentes à uma “casta” superior qualquer: na política, na religião, na filosofia – seja no que for. Odeio todas as formas de separatismo e de intolerância.
Odeio qualquer forma de intervencionismo estatal sob a bandeira da disciplinação da sociedade. Odeio os corruptores e, ainda mais, os corruptíveis. Odeio quem coloca preço na dignidade – na própria e na alheia – e, quanto mais alto o preço estipulado, mais isso será odioso.
Odeio o egoísmo míope, o individualismo vil, quem pede e recebe, mas recusa-se a pagar o preço – por menor que seja. Odeio quem evita enfrentamentos, quem teme as rupturas, quem se acovarda, se acomoda, cede e se amesquinha – se o prêmio for satisfatório.
Odeio os chantagistas – mas mais ainda os chantageáveis.
Odeio a pilantragem consentida, o mau-caratismo justificado, a maldade relevada, a cafajestagem conivente – e conveniente.
Mas não há nada, absolutamente nada, neste mundo e neste plano de vida que eu odeie mais do que a suprema crueldade de quem abandona um velho cão nas ruas, à própria sorte.
No olhar de um cão abandonado, entre expressões misturadas de sede, fome, frio, dor, medo e tristeza, há mais – infinitamente mais! – verdade do que todas as humanas palavras (incluindo as minhas) podem traduzir.
E todos os meus outros ódios ficam então reduzidos a quase nada.
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O AUTOR
FábioE§¢orpïão
São Paulo, SP, Brazil
Sou um contador de histórias, o que pode fazer de mim, mais do que um poeta das casualidades, um homicida - ou um suicida - em potencial