17.10.08

Em terra de cego

(ou Ensaio sobre a capacidade de enxergar)


Você olha em volta e tudo parece estranho.
Bem esquisito.

Você não consegue notar ao certo quando e porque tudo ficou daquele jeito – mas sente estranheza. As pessoas são estranhas, até mesmo as que você julgava conhecer bem e por quem sempre nutriu carinho sincero.

De repente parece que todos adotaram um modelo de comportamento esquisito, parecem estar permanentemente rindo, gargalhando mesmo. Você não consegue entender o motivo, mesmo porque você não acha graça! Mas, ao prestar atenção, consegue notar que o motivo de tanto riso não é o óbvio – não é por sentirem muita alegria, não é por um improvável estado coletivo de felicidade, não é resultado de alguma realização.

Não. Não é.

Mas fato é que seus amigos todos estão rindo à toa e você não consegue decifrar a razão – e se desespera procurando uma até que conclui pasmo: não há razão!

Indiferentes, seus amigos continuam espalhando suas gargalhadas vazias. E bebendo. Sim, seus amigos bebem. Bebem muito, todo o tempo, de modo que parecem quase viver para isso. Falam nisso o tempo todo – sequer cogitam a possibilidade de qualquer acontecimento social entre eles que não gire em torno disso: bebida! Você começa a pensar então que o motivo do excesso de riso é o excesso de bebida, mas logo fica em dúvida, porque passa a considerar que pode ser ... o contrário! Sim, porque parece que eles não bebem porque se encontram – como seria o normal? –, mas que se encontram para beber: e só para isso!

Você então se pergunta se é possível realmente gostar tanto de beber. Imagina que um terrível estado de embriaguez logo os fará parar – afinal, a embriaguez é o efeito indesejável da bebida! Mas, com um pouco mais de atenção, você nota que não é isso que acontece: sim, seus amigos bebem justamente para ficar bêbados!

Eles continuam rindo e cada vez mais bêbados, quanto mais bebem, mais riem – e quanto mais riem, mais bebem. Você acha estranho, eles não bebem porque se divertem: eles – só? – se divertem porque bebem!

Você tenta então conversar com eles: afinal, são seus amigos, sempre foram – e você gosta sinceramente deles! Mas, atônito, você descobre que eles estão ... falando outra língua! Sim! Um idioma vagamente parecido com o seu, mas com um vocabulário limitadíssimo e umas expressões e umas interjeições esquisitas, mais parecidas com grunhidos!

Quase todas as frases começam efusivamente com um som assim: “mééééooo” ... Você não sabe se parece com um miado, um mugido ou um grito de dor – mas fato é que quase tudo que seus amigos tentam verbalizar começam com aquele som: “mééééooo”.

Mas como são seus amigos e você quer muito se comunicar com eles, você começa então a prestar atenção no idioma que adotaram, na esperança de conseguir compreende-lo. Identifica mais algumas expressões, algumas muito constantes – como uma, presente em praticamente em todas as poucas frases com mais de quatro ou cinco palavras, que você traduz como uma espécie de vírgula verbalizada: “tchipu!”. Sim, pronunciam isso a todo momento: “tchipu!”. Há variantes da mesma expressão – para demonstrar alguma hesitação no conteúdo da frase seguinte, acentuam a última sílaba, assim: “tchipúúúú!”. E também uma variante mais elaborada, que soa mais ou menos como “tchipuassim” ...

Há ainda uma espécie de ponto final oralizado – pelo menos é o que parece, pois a expressão está presente no final de quase todas as frases – e você acha particularmente curioso pela entonação interrogativa: “taligado?”.

Então seus amigos estão lá, rindo à toa, bebendo feito gambás e falando com você naquele idioma escalafobético:

- Mééééooo, tchipu ... tchipuassim, taligado?

Não é só isso.

Ainda há mais coisas que você, subitamente, começa a estranhar.

Todos usam bonés. Sim, bonés. Também uns penduricalhos horrendos nos pescoços. Têm desenhos ininteligíveis tatuados sobre a pele – mas todos eles, sem exceção, juram que cada rabisco daqueles é dotado de muitos significados. Você, educado, os ouve explicar – e finge compreender.

Você segue seus amigos até um lugar escuro, abafado, cheio de gente – cheio de gente igualzinha a eles! Você vê seus amigos no meio daquele povo, agitando freneticamente seus corpos ao som de uns ruídos eletrônicos ensurdecedores, ritmados, com uns rudimentos de melodia – é a música dos seus amigos! Eles pulam, mexem os braços, transpiram, gritam – sim, gritam: que outra maneira haveria para se comunicar no meio daquela balbúrdia?

Então você, sempre observando atento, nota que muitos dos seus amigos e grande parte daquelas pessoas que se chacoalham naquele lugar escuro, de repente ... começaram a namorar! Sim, parece que muitos se apaixonaram subitamente, porque você vê muitos casais se beijando apaixonadamente por toda parte, beijos lânguidos, demorados, melequentos. Você olha e acha até bonito, tanto amor, assim, repentino! Mas ... opa! Aquela moça ali, namorando aquele rapaz, não é a mesma que estava, há cinco minutos, beijando outro? E aquele garoto ali, todo engalfinhado com uma menina naquele canto, não é o mesmo que você achou que estivesse apaixonadíssimo por uma outra pessoa há alguns instantes?! Sim, você percebe, atônito, que os casais se formam e se desfazem instantaneamente: se olham, nem palavras trocam e vão logo enfiando as línguas nas bocas uns dos outros! Parece ser uma mera e mecânica troca de salivas, após a qual cada um vai para um lado, como se nada tivesse acontecido – e à procura da próxima boca!

Você olha espantado para todas aquelas pessoas, entre elas pessoas de quem você gosta sinceramente – ou pelo menos pensava gostar até há pouco –, rindo feito bobos, se embebedando, gritando, não falando nada que preste, vestidos de forma patética, ouvindo e aparentemente adorando uma música tenebrosa, divertindo-se sabe-se lá com o que e lambendo bocas estranhas e se pergunta: todos ficaram assim de repente? Ou será que de repente foi VOCÊ que passou a notar? Pior: será que você também era assim, assim se comportava, por alguma razão mudou e só por isso passou a reparar?

Você fica perplexo – mas não está mais perplexo com o que vê e sim com a sua própria perplexidade! Sim, porque lá entre eles tudo parece normal e harmonioso, a única coisa que parece destoar é justamente você e a sua súbita perplexidade: se você não pudesse “enxergar”, nada haveria de estranho no comportamento das pessoas!



“Ensaio sobre a Cegueira” (“Blindness”, Japão/Canadá/Brasil, 2008), filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles e baseado na obra do escritor português José Saramago, narra o episódio de uma inexplicável epidemia de cegueira que se abate sobre uma cidade fictícia, rapidamente infectando todos os seus habitantes. Todos, menos um: uma mulher (Julianne Moore) que misteriosamente preserva a visão – e é pelos olhos sãos dessa personagem que o expectador é convidado a testemunhar a rápida e impressionante degradação em que mergulham os doentes ao serem confinados pelas autoridades em um sanatório abandonado. Por seus corredores imundos, onde cegos tateiam pisando sobre seus próprios excrementos, instaura-se o caos e uma insana e animalesca disputa por tudo: comida, território, poder. Ao decidir, juntamente com o marido (um oftalmologista vivido por Mark Ruffalo), não comunicar aos outros que é capaz de ver, a mulher exime-se de qualquer possível postura heróica, limitando-se à preservar a própria vida e a defender um mínimo de dignidade apenas ao próprio marido e a um pequeno grupo que, com eles, formam uma espécie de “núcleo ético” na trama. Mesmo porque, no cenário violento e caótico em que se transforma o sanatório, ter olhos não significaria de forma alguma ser “rei” – mas sim, certamente, ser escravo.

- Se tu pudesses ver o que eu sou obrigada a ver, quererias estar cego – diz a mulher ao marido em certo ponto da história.

Envolvente, impactante, o filme de Meirelles opta pelo registro naturalista da história, o que salienta – por oposição – a parábola desejada por Saramago: sobre quem realmente somos quando avaliamos que nossos atos não podem ser vistos ou julgados.

“Ensaio sobre a Cegueira” é uma metáfora que pode ser transportada para muitas situações da vida cotidiana – e enxergada em diversas facetas do comportamento humano.

Está no fato de ser “fácil” ser imbecil entre imbecis, a menos que um par de eventuais, improváveis e imprevistos olhos lúcidos nos estejam observando.

Está no comportamento das pessoas numa sala de espetáculos, todas educadas e elegantes sentadas em seus lugares, mas que quando as luzes se apagam ante o início da apresentação – o que lhes garante o anonimato –, sentem-se “livres” para gritar, assoviar e a dirigir adjetivos ao artista (sim, inofensivo e quase pueril, mas não menos significativo).

Está no procedimento ordeiro e civilizado das pessoas que esperam pacientemente pela sua vez numa fila de banco ou caixa de supermercado, evidentemente incapazes de passar abruptamente à frente de quem chegou antes – mas que numa estrada congestionada, ao volante de um automóvel (logo, com a identidade preservada e a individualidade “confundida” com a do próprio veículo), sentem-se no pleno direito de ultrapassar pelo acostamento: as duas situações não deveriam ser exatamente iguais?

Como toda metáfora, a contida em “Ensaio sobre a Cegueira” tem algum grau de hermetismo – e percebê-la pode exigir alguma capacidade de enxergar (com o devido perdão pelo péssimo trocadilho). Assim é que o filme foi recebido com certa frieza e tem gerado inclusive alguns protestos. Li ou ouvi em algum lugar que uma certa associação de cegos nos Estados Unidos está exigindo que o filme seja tirado de cartaz – segundo eles, ao retratar os cegos como “monstros”, Meirelles estaria externando uma visão preconceituosa.

À esses tais cegos americanos, eu gostaria de dizer que eles são, sim, idiotas. Mas que o fato de serem idiotas não reside de forma alguma no fato de serem cegos. Talvez resida no fato de serem americanos – mas essa já é uma outra história.

Em fóruns de discussão sobre o filme que visitei, testemunhei algumas pérolas. Uns acham o filme “sem pé nem cabeça”. Gente há que achou um absurdo assistir à duas horas de projeção e não receber nenhuma “explicação” para a epidemia de cegueira – se foi causada por “vírus” ou por algum problema resultante da “poluição ambiental” (mais incrível é que alguns arriscam palpites a esse respeito!). Ainda há os que não compreendem porque “o governo” não se empenhou em achar uma “cura” ou mesmo porque, sendo um dos personagens centrais justamente um médico oftalmologista, não teria este tentado pesquisar a causa do mal para poder vencê-lo!

Penso vagamente em explicar-lhes a idéia metafórica contida na obra. Mas logo me vem a idéia de que, por trás do teclado há alguém de boné. Penduricalhos horrendos no pescoço e tatuagens indecifráveis. Então abdico de qualquer iniciativa heróica. Desisto. E vou cuidar da minha própria vida.

Sim, às vezes o horror é enxergar.



***

4 comentários:

Debora disse...

Vc como sempre com esses teus texto consegue trazer de volta coisas que a gente achava que já tinha perdido.
Mas sabe que mtas pessoas bebem, enchem a cara todo dia, toda noite simplesmente para ter coragem de enxergar dentro de sí coisas que sobrias não tem coragem de fixar o olhar.
Bjos meu querido.
Tá lindo teu novo cantinho.

Karla Skarine disse...

OLÁ FÁBIO.
GOSTO MUITO DA FORMA COMO ESCREVE. E DE SABER QUE TB É MÚSICO, APLAUDO AINDA MAIS FORTE.
RECEBI SEU E-MAIL E ESTOU ENCANTADA COM O SEU BLOG.
QUEM SABE UM DIA NÃO DÁ UMA PASSADA LÁ NO MEU?
ABRAÇOS DA "PLEBÉIA",
KARLA SKARINE

Mhalu disse...

Olá Fábio, gostei mto do seu blog, vi o link na comunidade A odisséia de morar sozinho e resolvi conhecer. Valeu a pena.

abraços
Lourdes Mariano (Mhalu)

Michell Macedo disse...

Mesmo tendo algumas cenas muito fortes achei muito interessante este filme. A parte que mais achei interessante foiaquela onde o primeito recobrou a visão aí o sr ficou triste pq sua namorada provavelmente não ficaria mais com ele porque ela veria que ele é bem mais velho que ela. Mostra que a gente , muitas vezes se apega mais à imagem , não ao fundo. Bom pra refletir!!